Revista Philomatica

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Imprensa folhetinesca

Inventado pelo jornal - e para o jornal - o que no início chamava-se feuilleton-roman, tornou-se folhetim e, em muitos casos, a razão de existência do próprio jornal. Essa nova forma de literatura, cujos capítulos seriados eram publicados no rodapé da primeira página dos jornais, brotou de uma simples necessidade jornalística: aumentar o público leitor. Ponson du Terrail, Eugène Sue e Alexandre Dumas, por exemplo, garantiram a fidelidade de milhares de assinantes e, de quebra, a venda de zilhões de edições.
Assim como esses pães de liquidificador, que dispensam aquele trabalho de mergulhar a bolinha de massa crua em um copo d’água, esperar que ela flutue para, só então, levá-los ao forno, o folhetim tem uma receita simples. Eis os ingredientes: tome uma mocinha infeliz e perseguida, coloque-a no caminho de um tirano brutal e sanguinário, faça-a tornar-se amiga de um pajem sensível e virtuoso e, de quebra, dê um jeito para que ela revele seus segredos mais íntimos a um confidente dissimulado e pérfido.
Personagens delineados, tome da pena, misture todos rapidamente e produza sete, oito, dez, vinte folhetins e sirva-os quente! Porém, como bem esclarece Reybaud, é preciso ter a máxima atenção ao corte, porque é isso que define o bom folhetinista. É preciso que um episódio esteja amarrado ao outro, que desperte o desejo, a curiosidade, a impaciência de ler a continuação.
Esta curiosidade, claro, é o que vai determinar o grau de erotização do texto. Explico-me: depende de o autor manipular com destreza a estética do desejo e do obstáculo, de modo que o leitor, seduzido pela narrativa, fique preso pela periodicidade e à espera daquilo que o autor escolheu não dizer.
Sendo essa uma das habilidades requeridas ao autor do folhetim, tratando-se da imprensa, cuja notícias são apresentadas por meio de títulos chamativos - quando não falsos -, também à procura do maior número de leitores e à moda de fait-divers, o que vemos não é algo diverso, muito pelo contrário: seletiva e nada imparcial, escolhe fatos e situações, mistura-os a outros contextos, apimenta-se o enredo, destaca-se uma frase qualquer tornando-a dúbia, junta-se ao texto uma imagem também ambígua, acrescenta-se um gráfico, distorce e/ou relativiza-se os dados da célebre estatística de modo a confundir o leitor e voilà - eis a receita da imprensa folhetinesca. Sob alcunhas de Folha, Gazeta, Diário, Estado, Correio disso ou daquilo, e nomes sonoros como colunistas, articulistas, especialistas, jornalistas, etc, diariamente o leitor dá de cara com muito Aqui Agora e Datena impressos.
Tratando-se da política, não raro me pergunto quais pudores levam essa imprensa do espetáculo a dividir o noticiário político do policial, cujas imbricações nem mesmo leigos e ingênuos ignoram. Hipócrita, a imprensa não é afeita à imparcialidades. Parti pris? Não creio. A resposta talvez esteja no vil metal, que jorra para dentro da burra via anúncios de instituições públicas e, de forma indireta, por meio de partidos-quadrilhas devidamente registrados no Superior Tribunal Eleitoral.
E tudo isso é algo genuinamente brasileiro? Não, infelizmente não, caro leitor. Países como a França já passaram pelo que passamos hoje, embora, aparentemente, tenham conseguido expurgar a parte espúria e infecta. Extinguir a imprensa? Não, melhor tê-la a nos contentarmos com um sistema sozinho e soberano a nos dizer o que e qual é a verdade.
O que incomoda é a imprensa e a política comerem do mesmo prato, às vezes, fazendo uso até do mesmo garfo. Isso faz com que as bactérias transferiram de uma boca a outra, confundindo o pobre do leitor, obrigando-o a uma vigilância cansativa.
Não bastasse isso, é comum os jornais apresentarem as notícias sob viés literário: a ação se desloca de protagonistas a coadjuvantes à medida que os interesses mudam; quando não, a canaille surge dissimulada e bandidos-políticos viram celebridades. Até mesmo as críticas ao cascateamento da infração em todos os níveis de poder, esfera em que o crime tornou-se um de seus constitutivos maiores, é relativizada visando poupar uns e outros.  
Abaixo, reproduzo um extrato de Bel Ami, de Guy de Maupassant. O folhetim, de 1885, conta a ascensão social de Georges Duroy, homem ambicioso, sedutor e sem escrúpulos, que chega ao topo da pirâmide social parisiense graças às suas amantes e seu conluio entre finanças, política e imprensa. Neste trecho, Duroy, ao passear pelo Bois de Boulogne, reconhece os homens e mulheres mais influentes de sua época, demonstra conhecer seus segredos, a história de suas vidas e de suas fortunas. Cabe a você leitor fazer as atualizações: os nomes, escolha-os a seu critério; o local e a situação, relembre algumas das últimas aparições em que políticos e empresários vestiram-se uniformes de estatais, inauguraram projetos e exibiram-se para uma imprensa que, na manhã seguinte, publicou o show com ares de grandes realizações.

Este jogo o divertia muito, como se estivesse constatando, sob as severas aparências, a eterna e profunda infâmia do homem... E pôs-se a procurar os cavaleiros sobre os quais corriam as histórias mais salgadas.
Avistou bastantes homens suspeitos de roubar no jogo, cujos únicos recursos vinham da jogatina.
Outros, muito célebres, que viviam unicamente dos rendimentos de suas esposas; outros, das rendas de suas amantes... Muitos haviam pago suas dívidas - coisa muito honrosa -, sem que no entanto ninguém tivesse adivinhado de onde lhes tinha vindo o dinheiro (mistério muito suspeito). Viu homens de finanças, cuja imensa fortuna tivera origem num roubo e que nem por isso deixavam de ser recebidos por todos, nas mais nobres casas; e viu homens tão respeitados que os pequenos burgueses tiravam o chapéu à sua passagem, mas cujas trapaças descaradas nas grandes empresas do Estado não constituíam mistério para nenhum que conhecesse os avessos do mundo.
E todos tinham um ar altivo, o lábio orgulhoso, o olhar insolente, os de suíças e o de bigode...  (1959: 135)


Quem dera, leitor, a imprensa folhetinesca e imparcial nos apresentasse a canaille política como Georges Duroy a via... O que fazer? Conselho de tio velho em porta de sacristia:  observe e desconfie, ao menos saberá de fato quem é o lobo na história da carochinha reproduzida todos os dias nas páginas do folhetim que entregam à sua porta. 

 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Pop-mortem: Antonio Candido

O existencialismo, corrente da qual fizeram parte Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Albert Camus, defende que o homem constitui sua essência ao longo de sua existência, de maneira que não existe uma essência que o determine. A atitude existencial, algo como um estalo ou um escangalho das sinapses, ao mesmo tempo em que provoca no homem uma sensação de desorientação e certa confusão face à aparente falta de sentido e o absurdo do mundo, determina os sentimentos, as ações e a vivência do indivíduo. A grosso modo, é como se ao longo de nossa existência fossemos colecionando experiências, criando a nós mesmos, de modo que só com a morte atingimos nossa completude. Não à toa, a ênfase do existencialismo está na responsabilidade do homem sobre seu destino e no seu livre arbítrio.
Mas deixemos a nesga de erudição para lá: falemos de Antonio Candido! Ontem completou-se uma semana da morte do grande ensaísta e crítico literário brasileiro. Candido atingiu sua completude; escreveu as últimas páginas de seu livro. Cabe a nós, agora, a leitura de sua obra, a inveja de sua essência.
Até aí, nada demais! Contudo, o curioso mesmo foi tê-lo encontrado em meio aos entretenimentos e fofocas de celebridades em um site de notícias. Talvez um provável descuido; desses que fugiram às exceções e tornaram-se regra na malfadada indústria da informação.
Singular ou não, o fato é que me lembrei de Machado e por fim achei que talvez tudo não passasse de uma predestinação irônica, dessas que hora ou outra acometem seres supostamente alheios às futilidades efêmeras.
Explico-me: há tempos escrevi sobre a indignação póstuma de Machado. Ocorre-me agora que Brás Cubas, figura culta e refinada, porém voluntariosa, não só daria um piparotes em seu criador, mas também usaria de muita ironia ao vê-lo em meio a Madonna e a Mulher Melancia (ambas já recolhidas ao esquecimento) em uma banca de jornal.
Melancia, na capa de uma publicação especializada em estimular carpos, metacarpos e falantes de marmanjos, exibia o derrière e pernas em V invertido. Cubas não faria por menos! É certo que tripudiaria da página leve em que Machado traz de arrasto a Eneida e assola o verso virgiliano de modo a fazer com que virumque ignore a arma, degenerando-se em Vir, no intuito de sugestionar seu pai, que decide apresentá-lo a Virgília (Perdeu-se leitor? Eis pura provocação para que voltes às páginas de Memórias Póstumas!).
Na época, lembro-me que ao contemplar Machado exposto entre os exuberantes seios de Madona e o buzanfã da Mulher Melancia, a válvula de escape ao risível e ao ridículo veio-me de alguns versos de Baby grafados na capa de uma outra revista: lá vem o Brasil descendo a ladeira. À época Baby ainda não era do Brasil e este descia a ladeira na bola, no samba, na sola e ainda não lançava o salto em direção aos nossos sacrossantos traseiros!
Enfim, com Candido deu-se algo parecido: colocaram-no entre uma ‘bbb’ (com minúsculas mesmo!) que reclamara do reclinar de uma poltrona de avião e uma reportagem que versava sobre característica constitutiva do homem: o fingimento; no caso, homens que fingiam orgasmos. Vá lá, é certo que Candido tenha dado algumas remexidas post-mortem.
O fato é que Candido tornou-se pop; em vida, referência, admirado nos meios acadêmico e intelectual, morto, adentrou as revistas de celebridades e ao longo da semana disputou espaço com as fofocas. Contudo, nas redes sociais trouxe algum respiro para o universo facebookiano, lugar-comum de comentários repletos de clichês, preconceitos e uma boa dose de iracúndia.
Enquanto escrevo dou uma olhadela nas últimas notícias: figuras do meio político-policial de Brasília vêm a público afirmar que possíveis delações hão de marcar o fim da República, o que só prova que vivem em um mundo de fantasia, à parte. A lama é tanta que não vejo outra alternativa a não ser recolher-me também em meu mundo. Por fim, plagiando Cícero, se ao lado da biblioteca houver um jardim, nada me faltará! 

 Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Fatos, opiniões e pós-verdade


À época das ideias positivistas, teorias e argumentos, uma vez submetidos a métodos científicos válidos, tornavam-se irrefutáveis. Até mesmo a cultura surgia impositiva, considerando-se que havia freios à arbitrariedade de ações e crenças. Tudo isso perdeu-se na poeira dos tempos.
Vivemos tempos de extremado relativismo, tudo pode e não pode ser, enfim, a marca de nossa existência holográfica. O que você vê não é real. O que você lê não tem lastro. Fatos não existem mais, foram extintos pelo poder da opinião. São Tomé, insurreto em sua fé, jamais tocaria as chagas do Mestre; quando muito, viveria da exponencial dúvida que é a existência, obrigando-se a beliscar a própria carne para provar da sua materialidade.
Antes, a virtù visiva dava alguma garantia do real, ou da representação dele, seja lá o que isso for; hoje, vemos o que inexiste e, se existe, quando pode ser tocado - ou lido -, foi criado com o simples propósito da trapaça, do engano, para nos desviar daquilo que intencionalmente não querem - ou querem - que vejamos.
Vou a Pasárgada com a alma leve, mas não vou a Brasília, recuso-me. Caso me atrevesse comentar a estripulias das canalhas legitimadas que lá habitam, me embrenharia por um pessimismo que sequer o filósofo de Dantzig suportaria. Mas esqueça o preâmbulo, caro leitor, e vamos ao título.
Não sou expert em jornalismo, como também duvido que o seja a maioria que opina nos periódicos atuais. Tento ler a obra antes da crítica, e vá lá, às vezes sinto-me credenciado a dar meus pitacos.
Vamos aos fatos e opiniões: um fato é algo que aconteceu na realidade, e opinião, o que se pensa a respeito, uma interpretação. Eis a liçãozinha básica. Ocorre que nem todos recontam o fato do mesmo modo e é aí que, de modo sorrateiro, a opinião mete o bedelho; seja pela organização das ideias, seja pelo modo seletivo com que a informação vem à luz, priorizando a opinião do autor.
Fato e opinião se embrenham de tal modo que, relativizados, entram em conflito. Hoje, é comum ver a opinião galgar degraus, pisotear os fatos. Não que se deva priorizar um em detrimento do outro, mas é fato que não se condena um assassino, por exemplo, pela antipatia que o dispunha contra a sua vítima, mas pelo fato de tê-la mandado sem um reles óbolo, visitar Caronte.
E não é que a memória me traz de arrasto aquela senhora acriana, cujo marido fez fortuna à custa de umas poucas toras de mogno (mais um caso, dizem, em que confundiram fato e opinião)? Lá pelas tantas, antes da tragédia de Mariana, gozando da alcunha de ambientalista, bradou contra a arrogância e a esperteza dos fatos objetivos, derivados de um positivismo rudimentar, afirmou ela, que se julgam superiores à opinião, esta, vista como mera suposição subjetiva. Diz ela que os fatos, seletivos, surgem para sustentar opiniões baseadas em interesses próprios e objetivos.  
Nessa toada, o que se vê é a opinião maculada pelo objetivismo dos interesses, e o fato, outrora objetivo, ganhar subjetividade em consonância com o discurso e os interesses nele impressos. Alienados, os fatos tornaram-se massa de manobra, tanto é que hoje podem ser mesmo alternativos, virtuais; já a opinião vestiu-se de certa nobreza, em conformidade à relevância da posição de seu enunciador (na política, quase sempre pautada pela mediocridade, inexplicavelmente move multidões).
Parece-me que nós, o populacho, hora ou outra dependemos desse maná para sobrevivermos no deserto. Ao longo da travessia, olhos e mentes turvados pela areia, guiamo-nos pelo vulto da opinião, na qual acreditamos piamente, investindo-a de verdade. Isto posto, agimos como aquela personagem de Ponson du Terrail, o sr. Williams, para quem os homens deixam de acreditar nas verdades que afirmam em demasia.
Assim, chegamos à pós-verdade, comportamento que faz com que o homem se recuse a acreditar naquilo que está diante dos seus olhos, no que já foi provado por A mais B. Na era da pós-verdade, acredita-se naquilo em que se quer acreditar. O resultado, creio, é nefasto: políticos já não são mais políticos, mas gestores; quando investigados pelo desvio de milhões, se dizem inocentes; condenados pelos mesmos crimes, se dizem injustiçados, perseguidos; tratando-se da ineficiente máquina pública, os responsáveis, quando entrevistados, garantem sua excelência e plena funcionabilidade;  a população, de um lado, morrendo à míngua, reclama da ausência da polícia, do outro, a polícia afirma sua onipresença e eficiência; ministros cujas obras são referências, são pegos por plágios, mas continuam referências; doutores se dizem doutores, mas desconhecem o conteúdo de suas teses, pois jamais as escreveram; candidatos comemoram vitórias em concursos públicos, mas seus nomes já haviam sido escolhidos à socapa antes mesmo da realização das provas e così via. E acreditamos!
Hoje, desconfiei dos céus: as nuvens espessas prometiam chuva, porém, o sol rompeu-se abruptamente, rasgou o enorme aglomerado de gotas em suspensão, mostrou-se atrevido; ainda assim, acreditei que chovia, senti as gotas d’água que escorriam pelo meu rosto, gotejavam dos lábios e deslizavam até meu peito gotículas de pós-verdade.

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sexta-feira, 12 de maio de 2017

Ruínas, crônicas e lembranças


O céu exibe uma lua cheia e brilhante cujo ápice da visibilidade será daqui a dois dias. Contudo, não se dá o mesmo com as notícias, pois à medida que o tempo avança, a impressão que se tem é que elas tornam-se cada vez mais obscuras. Tem sido difícil desvendar as entrelinhas, descobrir o que está por trás, enfim, os interesses de uns e de outros ou de todos em conluio.
Parece-me que temos lido as mesmas notícias há dias, tal a assiduidade com que o modus operandi da canaille é desvendado nas páginas dos jornais, sempre de modo seletivo, é claro, e em consonância com os próprios interesses da imprensa. Mas vá lá, deixemos a política torva e sanhuda de lado!
Roma, que é feita de escultura e arquitetura, à sombra de grandes árvores imensas (se não me falha a memória, foi exatamente assim que Rubem Braga a descreveu), surpreendeu mais uma vez, a despeito dos arqueólogos alemães, ingleses, americanos e de tantos outros ciosos de uma boa pilhagem. Explico-me: hoje li em um site italiano dedicado à história romana, que as escavações na tomba del gladiatore ainda continuam a fascinar.
De pronto, foi-me impossível não traçar sinapses intertextuais, uma vez que acabara de ler o Manifesto Antropófago (ou Antropofágico) de Oswald de Andrade; ali, Oswald tasca que nesse paiz da cobra grande “nunca tivemos grammaticas, nem colecções de velhos vegetaes. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental”.
Nessa toada, no encontro de culturas dissimétricas, a antropofagia surge como um conceito que atribui papel ativo à cultura ‘subjugada’. Aliás, não era outra a vontade do Bruxo do Cosme Velho. Machado de Assis se ressente do pays féerique proferido por Sarah Bernhardt, ignorando aspectos da cultura brasileira. Mas, como disse Oswald décadas depois, “nunca soubemos o que era urbano”, e aí, permita-me o leitor um pequeno retoque: “nunca soubemos o que eram ruínas”.
Hoje, achamos hora ou outra um vidrinho aqui, um caquinho de vaso acolá. No XIX, o máximo que fazíamos era tentar exumar uma ou outra ossada, tal aquela há muito sepultada no Castelo e creditada a Estácio de Sá, que Machado comenta em uma de suas crônicas. Machado desconfiava dos tais ossos e, ironicamente, resgata uma historieta em que coloca Méry em Roma a presenciar dois sujeitos cavando os flancos da Cidade Eterna.
Animados por dois lords ingleses, os trabalhadores exumaram fragmentos de uma estátua que aparentava nada mais nada menos que mil anos de idade. Apaixonado por antiguidade e ruínas como Chateaubriand, Méry não se contém e humildemente pede aos ingleses para ajudá-los a transportar as preciosidades. Mais à noite, em uma reunião, Méry descobre que os fragmentos achados haviam sido preparados na véspera para parecerem que datavam de longe. Eis as ilusões do espírito deixando-se iludir pelas ruínas, que, embora falsas, impressionavam e exibiam volumes e massas.
Mas não parece ser esse o caso da tomba del gladiatore: descoberta em 2008 ao longo da Via Flaminia, na periferia de Roma, a sete metros de profundidade, sob vias férreas e em escavações preliminares para a construção de edifícios, surgiu da noite dos tempos não só a tumba, mas também o traçado de uma antiga via romana e um monumento incrivelmente preservado. Descobriu-se que pedaços do mausoléu traziam o nome de uma personagem célebre da história romana, o general Marcus Nonius Macrinus, do exército de Marco Aurélio e desaparecido em 161 d.C.
Como alguns anos antes Ridley Scott havia realizado Gladiator, não demorou muito para que a imprensa ligasse o fictício Massimo Decimo Meridio a Marcus Macrimus; daí por diante, o general romano tornou-se gladiador e seu mausoléu a tumba do gladiador, de modo que a história, mais uma vez, curvou-se à ficção.
Em 2010, veio à luz a estátua da esposa do Gladiador e, como sempre acontece na história de Roma, quanto mais se cava, mas surpresas emergem da terra. O sítio arqueológico em que jaz o mausoléu do Gladiador, dada a sua riqueza, já foi apelidado de “Fórum Romano em miniatura”. As escavações prosseguem, infelizmente visível aos olhos de alguns poucos privilegiados, de modo que Chateaubriand seria impedido de meditar sobre tais ruínas.
Como não sou Chateaubriand nem nada, cá com os meus botões, conto os dias para novamente vislumbrar a ruinaria da Città Eterna.

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quarta-feira, 10 de maio de 2017

O homem é o lobo do homem

Homo homini lupus est. A expressão vem de longe; apareceu pela primeira vez na comédia Asinaria (c. 195 a.C.), de Plauto. Ao longo da circulação das ideias foi retomada por Plínio, o Velho, Erasmo, Bacon, Schopenhauer, Montaigne, Hobbes e mais uma porção de homens - e lobos.
Há pouco, li um artigo sobre a violência entre os primatas. No mundo animal, os suricatos ganham em disparada. Nada afeitos à competição, sacrificam os recém-nascidos. Contudo, na vida adulta, sequer os suricatos superam os humanos - assim chamados porque são pretensamente dotados de razão -, cujos espécimes matam sem qualquer motivo aparente. Eis, em parte, o significado da expressão.
A compreensão total, no mais das vezes, vem do fato de o homo sapiens não se contentar com uma mortezinha e pronto acabou. É preciso requintes de crueldade e submissão, enfim, apreciar a espinha dorsal do adversário curvar-se ao chão, humilhá-lo, destruí-lo em vida, fazê-lo rastejar-se, vê-lo mendigar o pão de cada dia - e só. A morte é a cereja do bolo. Alteridade, tolerância, respeito e tantos outros atributos fazem parte de seu discurso diário. Nas vezes em que se pretende amigo do homem, saca sua cartilha de humanidades e clama pela razão. Mas isso é discurso, na prática, bem a prática...
Mas vá lá, a memória é fraca e a cartilha é logo deixada de lado; os que estão à sua volta tornam-se invisíveis, acha-se o escolhido, e, quando acredita-se desrespeitado, lança mão da famosa carteirada: Você sabe com quem está falando? Se brasileiro, julgando-se especial, recorre ao famoso jeitinho, fazendo valer o dito do velho cronista de que a exceção só é odiosa para os outros; em si mesmo é necessária. Tratando-se de política, democracia é quando ele manda e os outros obedecem; dando-se o contrário, é ditadura. E la nave va!
Ave Schopenhauer! Vê-se leitor, que hoje estou para generalizações. Quando isso ocorre, sabe-se, lá vem verborreia... Voltando aos lobos, a razão pela qual me veio à memória o aforismo de Plauto nem foi a individualidade extremada de nossos dias e o fato de que nos tornarmos o maior dos predadores da natureza, mas a saga do lobo, o canis lupus.
E não é que antes de ser odiado pelos homens, o pobre do lobo era objeto de adoração? Buffon, já contaminado, referindo-se ao animal, disse: “Desagradável em tudo, estatura baixa, aspecto selvagem, voz assustadora, odor insuportável, natureza perversa, modos ferozes, ele é odioso, prejudicial enquanto vivo, inútil após sua morte.” Misto de repulsa e atração, este canidae percorreu o folclore, histórias e lendas; ainda hoje, atrai e assusta.
O fato é que bem antes de assustar as criancinhas nas fábulas de La Fontaine ou Charles Perrault, o lobo era objeto de admiração por parte do homem. Etnozoologistas afirmam que nos locais em que viveram os lobos, havia grupos de caçadores para os quais ele era um modelo absoluto; a ele creditavam a fundação de linhagens reais e de chefes e até mesmo a fertilidade. Nessas sociedades que viviam da guerra e da caça, o lobo era muito bem-vindo, o modelo a imitar.
Diz-se, contudo, que o homem sempre odiou o lobo porque se parece muito com ele. Talvez, por isso, Plauto, ao demorar-se nas semelhanças, viu que a mesma astúcia e força empregada pelo lobo no exercício da caça, o homem aplica para subjugar seu semelhante. Quando se admira alguém, o que fazer? Imitá-lo e perpetuá-lo como exemplo a seguir. Disso, por exemplo, as inúmeras estelas com imagens de lobos encontradas por historiadores e arqueólogos em escavações, a lenda de Rômulo e Rêmulo, alimentados por uma loba e così via.
Como o lobo tornou-se um animal diabólico? A religião! Deixo a palavra com a etnozoóloga Genéviève Carbone: “Descobrimos uma nova religião inteiramente diferente que diz que há um Deus sobre Terra, que ele está ao lado do cordeiro, da luz, e que ele vai banir o inverno, a morte e o frio. O problema é que o lobo está do lado do inverno, da morte e do frio e é ele quem vem para comer os cordeiros quando esquecem de vigiá-los. Para continuar a integrar um lobo, que é um dos elementos mais importantes do folclore ocidental com o urso, é preciso encontrar uma razão de ser, e esta é o diabo. Assim, acomodam o lobo do lado da noite e da feitiçaria.” E que venham os lobisomens!
Hoje, o dito de Plauto e as historietas modernizaram-se: para mim, Chamfort é o que mais se aproxima do italiano ao afirmar que a sociedade não é outra coisa que um grupo de que uma parte devora a outra; por sua vez, o lobo acomoda-se perfeitamente à figura do homem que oprime e subjuga a mulher - e que Deus proteja vovó e a Chapeuzinho! -, ou, numa exegese marxista, ao capitalista bem sucedido que, também opressor, explora o proletariado, de modo que tudo fica a gosto do freguês, até mesmo porque já não há mais lobos que façam mingau de criancinhas e as exéquias, assunto que tomou a semana, encheu os picuás! 

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sexta-feira, 5 de maio de 2017

Ítaca ou Pasárgada?

Ítaca ou Pasárgada? As notícias da semana, em grande parte protagonizadas pela canaille, não nos deixam dúvida: devemos fugir. Antes que escolha entre Ítaca ou Pasárgada, as sinapses me trazem aos ouvidos a canção de G. Gil. Ocorre que a canção é de um lúdico rasteiro, nem mesmo serve para alentar qualquer espírito já turvo e lesionado por falta de oxigênio. A canaille nos rouba o ar e não temos herói que nos liberte ou louco que nos traga à sanidade.
Fugir? Para onde? Ítaca é um longo caminho de volta. Não à toa Penélope ali esperou por Ulisses por mais de uma década. A viagem até Ítaca é repleta de aventuras; encontramos ciclopes pelo caminho. Porém, não ligamos, pois a poeira dos tempos encarregou-se de apagar de nossa memória Polifermo e tantos outros que, com Hefesto, forjavam os raios usados por Zeus.
Perdemos toda e qualquer nobreza mítico-literária, já não há mais deuses e semideuses, somos todos iguais em nossa utópica república do politicamente correto. Incoerentes, vivemos em meio a uma violência moral, em que a notícia e o fato cruento surgem implacáveis e impiedosos. Hoje, forjam-se raios em mãos moral e profundamente comprometidas. Nossos ciclopes continuam a ser divididos entre os de primeira e os da nova geração, contudo, travestidos de vampiros, sugam-nos o sangue e a alma, tratando-nos com extrema indiferença.
A estrada, sabemos, é longa: mais ou menos setenta, oitenta anos, e atravessamo-la a trancos e barrancos. As manhãs de verão são muitas, mas a alegria de ver novos portos é sempre uma incógnita. Por mais que conheçamos outras paragens, não devemos perder Ítaca de vista, pois nosso destino será nosso alento. Como dizia o poeta, ainda que Ítaca não nos dê muitas riquezas, ela nos dará uma bela viagem, ademais, sem ela não teríamos partido.
Seja a pé, seja de trem, mesmo se Ítaca nos parecer pobre, ela nos terá feito sábios, e, por causa dela, teremos vivido uma vida plena e intensa. O mesmo ocorrerá se decidirmos por Pasárgada, esse país de delícias imaginado pelo poeta.
Contudo, só vamos para Pasárgada porque aqui não somos felizes e também porque lá somos amigos do rei. Por isso importa a viagem. “E quando eu estiver mais triste/ Mas triste de não ter jeito/ Quando de noite me der/ Vontade de me matar”... Ah, Bandeira! Se tivesses lido o que li hoje... Ficarias mesmo muito triste ao ver que chegamos onde nunca imaginaste...
Veja você leitor: em Luiziana, um pequeno vilarejo no centro-oeste do Paraná, o ex-prefeito José Claudio Pol, também conhecido por Claudião tornou-se réu por homicídio e peculato em uma ação criminal. Até aí nada de novo, afinal, políticos tornarem-se réus já é lugar-comum no noticiário nacional. O estranhamento, no caso, vem da própria imprensa ao relatar tais peripécias nas páginas de política e não nas páginas de polícia.
Bem, o vilarejo em que Claudião reinava possuía um só cilindro de oxigênio móvel da unidade de saúde, e não é que Claudião, também cachaceiro, tomou emprestado o tal do cilindro da unidade de saúde para bombear chope em sua festinha particular? Tudo passaria desapercebido não fosse uma paciente inoportuna que resolvera passar mal justamente enquanto Claudião e sua prole sorviam do chope bombeado com o oxigênio que, surrupiado da paciente, obrigou-a a apressar sua visita ao Hades.
O irônico é que na foto publicada pelo familiares de Claudião, o cilindro está logo abaixo de um quadro que exibe o rosto do Cristo entalhado em madeira. Ainda que de muito mal gosto, a representação do Mestre não deixa de ressaltar a nulidade de seus conselhos, ao menos para Claudião, o fariseu, que, pelo menos por enquanto, não se encaixa bem na historieta do filho pródigo, pois antes terá que se ver com a justiça.
Como vês, leitor, a saída é fugir: seja voltar a Ítaca, de onde nunca deveríamos ter saído, seja para Pasárgada, onde somos amigos do rei. Deixemos a pátria mãe gentil; distraída, se Claudião lançar nova candidatura em 2018, ela o receberá de braços abertos. Hipócritas, bradamos alguma dose de moralidade, mas gostamos mesmo é de uma boa patifaria. O STF está aí e não me deixa mentir. 2018 está às portas!
Mas não nos condenemos! Não somos muito diferentes de outros povos, afinal, há mais de dois mil anos libertaram Barrabás!


Imagem: Vers Ithaque, de Henry Pou

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terça-feira, 2 de maio de 2017

1984: um cânone?


“Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.” O incipit, leitor, extraí-o de Por que ler os clássicos, de Italo Calvino, e é uma das quatorze razões apresentadas pelo autor para se ler aqueles livros sobre os quais sempre ouvimos falar, mas jamais nos permitimos uma leitura integral. Na maioria das vezes, resenhas, entrechos comentados, filmes e séries de TV foram os meios pelos quais tivemos algum contato com tais obras.
Em todos esses casos o texto foi modificado por leituras anteriores, muitas vezes com o objetivo de sustentar argumentos externos à obra. É certo que o “eu” que se aproxima do texto já é uma pluralidade de outros textos, mas, às vezes, somos levados para bem longe do pensamento do autor, de modo a nos extraviarmos do espírito da obra.  
E, parece-me, foi o que aconteceu semana passada com 1984, de George Orwell, quando se pretendeu explicar o neologismo criado pela equipe do doidivanas e arrogante (perdoem-me, os adjetivos são necessários) presidente americano. Trata-se, em novilíngua, do termo “fatos alternativos”. A expressão, classificada por especialistas como orwelliana, dá-se em razão de o fato em si não ter realidade objetiva. Ou seja, nada muito diferente do que os diferentes Miniver (Ministério da Verdade) de nossos últimos governos já não tenham feito, sob verniz democrático, é claro, incensando liberdades, mas, de fato, acreditando piamente que a Ignorância é força (sempre para o Grande Irmão, é claro!).
Contextualizando: após o uso da expressão pelos assessores de Trump, as vendas do chamado romance distópico de George Orwell disparou. À informação que se publicou aqui no Brasil - eco da que viera à luz nos jornais americanos e europeus do dia anterior -, em terras tupiniquins, acresceu-se opinião, de modo a propalar ainda mais a guerra entre os Azeredos e os Benevides, localizando a distopia entre as diferentes correntes de pensamento da politicalha. Incautos, muitos internautas deixaram-se guiar pela animosidade, esquecendo-se da fala da velha: “Calma, tem bosta prá todos!”, tal a polarização vista nas redes sociais, onde o ódio se alastra.
Mas voltemos a 1984, que você, leitor, se não leu, deve ler! Publicado em 1949, a obra retrata o quotidiano de um regime político totalitário de modelo comunista. Na época, a palavra democracia não era ainda um arcaísmo tão relativizado e ambíguo a ponto de se aplicar à ditaduras, portanto, não oferecia confusão ao leitor, que sabia dar nome aos bois. O romance mostra como uma sociedade oligárquica reprime qualquer um que se opuser a ela e, de forma magistral, como um regime coletivista-socialista intenta contra a vida dos cidadãos, invadindo os direitos do indivíduo.
1984 é de fato uma metáfora sobre o poder e a atuação de regimes comunistas e, por extensão, de alguns ditos socialistas e/ou capitalistas. Orwell, que foi um dos primeiros simpatizantes ocidentais da esquerda, também foi um dos primeiros a se dar conta de para onde o estalinismo caminhava. Na obra orwelliana, escrita em regime de urgência, haja vista sua luta contra a tuberculose que o levaria à morte, o Grande Irmão é ninguém menos que Stalin e seu arqui-inimigo Goldstein, não é outro senão Trotsky. Hoje, a lista de nomes traria certa dificuldade ao leitor.
Já nos primeiros parágrafos de 1984 o leitor tem a sensação de que partes foram extraídas de notícias recentes; e nem é preciso deitar os olhos para além de nossas fronteiras e vislumbrar um vizinho qualquer que sociabiliza a fome e a miséria em proveito de princípios ideológicos. Não que se não deva tê-los, mas, bem alimentados, cérebros funcionam melhor e, parece-me, não é esse o desejo de todo Grande Irmão.
Em nossos dias, dividimos os cidadãos em duas classes: os ideocriminosos, que contestam a imprensa oficial e o partido, e os entusiastas, tão seletivos quanto os primeiros, mas tão entorpecidos quanto foram os seguidos de Jim Jones.
Orwell, ilustra de forma genial o comportamento dos cidadãos durante os Dois Minutos de ódio (hoje o tempo foi distendido; dispomos de redes sociais!): “O horrível dos Dois Minutos de ódio era que embora ninguém fosse obrigado a participar, era impossível deixar de se reunir aos outros. Em trinta segundos deixava de ser preciso fingir. [o ódio] Parecia percorrer todo o grupo, como uma corrente elétrica, um horrível êxtase de medo e vindita, um desejo de matar, de torturar, de amassar rostos com um malho, transformando o indivíduo contra a sua vontade, num lunático a uivar e fazer caretas. E no entanto, a fúria que se sentia era uma emoção abstrata, não dirigida, que podia passar de um alvo a outro como a chama de um maçarico.” 
Eis porque 1984 não só é um clássico que ainda não terminou o que tinha a dizer, mas também um cânone, sobretudo porque é um daqueles livros que nos trazem uma estranheza que jamais assimilamos inteiramente; seja porque apresenta um tipo de originalidade que ou não pode ser assimilada, seja porque nos assimila de tal modo que deixamos de vê-la como estranha - com os devidos créditos a Bloom -, e a despeito da Escola do Ressentimento.



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domingo, 30 de abril de 2017

A Mário de Andrade e outras historietas

Aficionados por livros, de modo geral, demonstram similar entusiasmo por bibliotecas. Desaparecidas na poeira do tempo e envoltas em mistério, algumas delas não só trazem nostalgia, mas também certo pesar à alma. Não há estudioso, bibliófilo ou erudito que não tenha um dia vislumbrado em espírito a Biblioteca de Alexandria plena de papiros, pinturas e peças arqueológicas. Relatos afirmam que o maior centro de saber da Antiguidade, hoje célebre por sua mítica destruição nos tempos de César e Cleópatra, possuía uma coleção que continha “todos os livros de todos os povos da terra”.   
Ainda que por elas o fogo demonstre a mesma atração que o mais voraz dos ledores, o intróito, leitor, não tem outro fim que o de trazer algum enlevo ao espírito, pois as bibliotecas resistem, seja na história, seja nas lendas! Com a Mário de Andrade não poderia ser diferente. A biblioteca paulistana, que ganhou algum espaço na imprensa em razão da troca de diretor - ora uma benção, ora uma fatalidade ao final de cada gestão -, padece de males menores que, no entanto, atravancam a vida do leitor.
A título de exemplo, relato alguns percalços por mim vividos na Mário de Andrade: era o ano da graça de 2006, acabara de iniciar meu mestrado e, entusiasmado, propus-me sair à busca de periódicos oitocentistas. Interessava-me, sobretudo, o contexto político-social que se avizinhava nas páginas do Diário do Rio de Janeiro, Gazeta de Notícias e tantos outros. Neles, pretendia estudar as crônicas machadianas tal como haviam sido publicadas.
Em minha primeira visita à Mário de Andrade, inexperiente, não sabia exatamente quem deveria procurar para que pudesse ter acesso aos tais periódicos, nem mesmo se isso se me seria permitido, tratando-se de documentos raros. Na recepção, senti-me em uma padaria à procura de alfinetes para alinhavar a barra da calça desfeita. Recebido por funcionários muito simpáticos e educados, fui direcionado de um para outro sem que obtivesse qualquer informação.
Dias depois, via e-mail, soube que em razão do restauro pelo qual passaria a biblioteca, os periódicos haviam sido transferidos para a Biblioteca Prefeito Prestes Maia, em Santo Amaro, conhecida e ainda chamada por todos de Presidente Kennedy.
Chovia torrencialmente quando me desloquei pela primeira vez a Santo Amaro. Uma vez na biblioteca, pediram-me que aguardasse a bibliotecária responsável, pois se tratava de jornais “velhos” e só ela tinha acesso ao repositório de jornais. Enquanto esperava, presenciei o extremo cuidado com que etiquetavam as dezenas de livros de arte doados à biblioteca pelo Rotary Club.
O processo, razoavelmente simples, consistia em segurar o exemplar, queixar-se do peso do livro, resmungar muito pelo excesso de trabalho e reclamar pelo que ainda deveria ser feito após a etiquetagem, até que os livros finalmente fossem parar nas prateleiras. Às vezes, como se estapeassem o mundo, a etiqueta era afixada na lombada dos livros, que, posteriormente, eram jogados no chão, agora, sem qualquer cuidado. Só um leitor contumaz, privado de livros por algum tempo de sua vida e, em outro, desejoso de ler o que não podia comprar, sabe como presenciar todo esse esmero lhe afaga o coração!
Voltei pensando na vida e nos livros que vi amontoados, maltratados e sós; esquecera até mesmo que havia esperado até o meio-dia pela bibliotecária que não viera. Na quinta-feira da mesma semana repeti a visita: mais uma manhã de espera. Na terça-feira seguinte: nova visita, nova espera. Na quinta, a ida já se tornara via-sacra. Sob a ameaça de que ligaria para a secretária ‘não-sei-das-quantas”, algumas ligações foram feitas e uma hora depois apareceu a bibliotecária. Comecei por explicar-lhe a razão de estar ali, quando fui por ela interrompido: “Sinto muito, os jornais estão no quarto andar, há muitas goteiras e, com essa chuva, nossa!, estão molhados, não podem ser consultados.” - Eu: ??????? - Ela: Só para saber, qual é período? - Eu: Séculos XIX e começo do XX, de 1859 a 1904, para ser mais preciso. - Ela: Ah, mas nós só temos periódicos a partir de 1908. - Eu: Lá na Mário de Andrade não sabiam disso? - Ela: Sabe como é, por mais que a gente oriente, alguns funcionários parecem ausentes...
Passados alguns anos, a Mário de Andrade é outra! Trocaram a calçada duas vezes, ainda que a primeira estivesse em perfeito estado; colocaram também um moderno corredor de vidro na fachada do prédio supostamente histórico, que faz as vezes de aquecedor para a sala de leitura, sobretudo em dias de sol escaldante.
Ano passado (2015) voltei à Mário de Andrade algumas vezes. Em uma delas, interrompi o artigo que escrevia para ir à toilette; ao voltar, fui advertido por uma funcionária de que deveria ficar atento aos meus pertences quando me ausentasse. - “Jamais deixe notebooks, celulares ou mochilas na mesa em que está ocupando; na semana passada tivemos dois roubos aqui dentro”, disse-me ela. Na toilette, nova surpresa: moradores de rua dos arredores usam o espaço para banhos; enquanto um senhor se banhava nas torneiras reservadas para lavar as mãos, o espaço fora temporariamente interrompido aos frequentadores da biblioteca.
Mas isso é passado! Dizem que nos últimos meses a biblioteca era um esmero só! Acabo de ler uma entrevista com Charles Cosac, um dos maiores editores do país, o novo diretor da Mário. Desejo-lhe muita boa sorte e espero que sob sua gestão a Mário continue a propalar a notória referência dos últimos dias, tal a Cosac & Naify, muito embora na dita entrevista tem-se a impressão de que o Sr. Cosac, tratando-se da biblioteca, mostra-se um tanto naïf.
O Sr. Cosac, sabendo que pisa em terreno pantanoso, tratou logo de se proteger, colocando junto de si uma escultura de seu protetor São Miguel Arcanjo. Contudo, penso que vencer a burocracia é tão difícil quanto ser tentado no deserto, haja vista, nas alturas, só um ter direito a sentar-se à direita do Pai.
O Sr. Cosac fala de aspectos administrativos, fungos, preservação, refrigeração, janelas que não abrem... Mas isso, penso eu, sabíamos todos! Quem já passou uma manhã ao lado do corredor de vidro, provou calor igual ao do sexto círculo do Inferno. O consolo é que a biblioteca continuará funcionando durante 24 horas. Até quando? O Sr. Cosac não sabe. Talvez pelo fato de ter sido uma nomeação instantânea, status QI, procedimento comum na coisa pública, o Sr. Cosac parece um tanto absorto: “a ideia é digitalizar...”, “o ideal seria começar...”, “a gente vai ter que criar...”, “até pensei em fazer uma exposição de orquídeas...”, “a gente vai ter de criar uma rede de aquisição, de doação...”.
O Sr. Cosac fala ainda em trabalhar com voluntários. Algo louvável, mas temeroso. Lembrei-me do furto de obras raras ocorrido na biblioteca em 2006, do estagiário indiciado, da primeira edição de O Guarani, posteriormente comprada por um colecionador na Babel Livros... Lembrei-me ainda de ouvir José Mindlin contar sua aventura para adquirir edição similar...
O Sr. Cosac anda cheio de ideias. Ainda que não seja um bibliotecário - algo que ele mesmo afirma -, uma coisa é certa: já está a meio caminho, entende do riscado: é amante de livros. Desejo-lhe sucesso e vida longa à Mário de Andrade.

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sexta-feira, 28 de abril de 2017

Deus, essa personagem literária


Confesso que hoje não pretendia sequer resvalar na canaille. Mas não é que certa senadora, acima de qualquer suspeita, veio a público afirmar peremptoriamente que em seu partido não há bandidos? Li o que li em tom de ironia, afinal, só essa figura de retórica tem o poder de negar afirmando, como parece ser o caso. É tudo tão óbvio que nem mesmo a ironia de situação, acho, dá conta do desejado.
Mas voltemo-nos ao Altíssimo. Em minhas aulas de literatura tratava do estético, essa preocupação mais de cunho individual que de sociedade. Conversa vai, conversa vem, comentávamos alguns aspectos da originalidade, quando lembrei-me daquela estranheza que jamais assimilamos, teorizada por Bloom. O assunto pulou para a genealogia das obras e de arrasto veio o Gênesis. Curso de Letras, discussão sobre livros, literatura e discursos, e a tradição religiosa se impõe como provocação ante a compreensão da ficção.
Melhor fora não imaginar o mundo sem Deus e dar asas ao existencialismo sartriano, porque aí as suscetibilidades e a fé destruiriam qualquer raciocínio. Diante disso, trouxe Voltaire com sua célebre expressão Si Dieu n’existait pas, il faudrait l’inventer (Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo.) e tudo continuou como se esperava.
Mas o fato é que a ambivalência entre o humano e o divino marcam os textos bíblicos desde a origem, sendo esta uma das características de sua originalidade. O susto vem da compreensão de que a adoração de Deus por judeus, cristãos e muçulmanos é a adoração de uma personagem literária. E não me acusem de blasfêmia, pois só estou a papaguear Bloom.
Acredita-se que a autora original dos livros de Gênesis, Êxodo e Números tenha sido J ou Bathseba, a rainha mãe de Salomão, uma hitita tomada pelo rei Davi, que, depois de cobiçá-la, deu um jeito de “apagar” do mapa seu marido Urias, enviando-o para um combate mais que conveniente.
É claro que a ironia de uma hitita escrever os livros basilares da Torá, e não um israelita, deveria ser corrigida, afinal, o Javé de Bathseba, também conhecida por J, é humano demais: é vingativo, come e bebe, delicia-se com suas estripulias, é ciumento, proclama sua imparcialidade ao mesmo tempo em que se coloca ao lado de seus protegidos e così via, de modo que Deus, Zeus e todo o pessoal do Olimpo irmanam-se em ações e humores, relativizando o divino e o pagão. E aqui trago um trecho sublime de Bloom: “Quando [Deus] conduz essa malta [os israelitas escravizados no Egito] enlouquecida e sofredora pelo deserto do Sinai, já se tornou tão insano e perigoso, para si mesmo e para os outros, que a escritora J merece ser chamada de a mais blasfema de todos os autores que já existiram.”
Não à toa, o que Bathseba escreveu foi censurado, apagado, distorcido e revisado inúmeras vezes ao longo dos séculos até que tivéssemos os livros tais como os lemos hoje, sendo Ezra o último desses redatores, logo após ter retornado de seu exílio na Babilônia.
Bathseba dá azo a uma liberdade irônica ao retratar Javé (Deus) que, é certo, escandalizou sacerdotes e escribas, portanto, o melhor a fazer era reescrever tudo ou a maior parte.
A narrativa de J, até onde se sabe, termina quando Javé enterra Moisés, com suas próprias mãos, numa cova anônima, sem sequer tê-lo deixado botar os pés na Terra Prometida. O relato de J, que transcende a ironia e a tragédia, traz Javé como uma personagem que se aflige por ter escolhido um profeta obstinado, obrigando-o mesmo a tentar assiná-lo gratuitamente enquanto a malta vagava pelo deserto.
Mas evitemos outros sustos: não falemos da personagem criada pelo evangelista Marcos, ou da audácia de Maomé ao registrar a voz de Alá em detalhes e extensamente no Corão. Relativizemos. Atenhamo-nos ao tamanho da nossa sociedade fluminense (como diria Alencar) e, ainda assim, não falemos da imagem encontrada nas águas no Rio Paraíba do Sul. Não olhemos para Padim Ciço, conselheiro de Lampião!
Quanta pretensão divina em reles humanos!
Mas vá lá! Por mais que o caldo entorne, ainda temos de um lado Voltaire a dizer que há uma fé para as coisas espantosas e outra fé para as coisas contraditórias e impossíveis; e do outro lado a canção, que teima em nos alentar garantindo que “a fé não costuma faiá”.

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terça-feira, 25 de abril de 2017

Pássaros sem asas

E 2017 enfiou o pé a fundo no acelerador! Findou-se mais uma daquelas semanas pobres, em que os assuntos não oferecem muita relevância, sobretudo porque a canaille política, recolhida em seus covis - ou em Paris -, adia os habituais escândalos para fevereiro ou março, meses em que pretensamente volta ao trabalho.
O resultado é que a maioria dos sites de notícias, num esforço hercúleo para atrair o leitor, anda recheada de disparates. Quase nada se aproveita; o risco, nesses casos, é de embotar as ideias. Pensando informar-se, o leitor escorrega ladeira abaixo e é levado a comprar ouro de tolo.
À procura da arraia-miúda, satisfiz-me com o fútil. No site do partido, o episódio mais lido pelos leitores foi a gafe cometida ao vivo por uma jornalista - mais isso foi lá em 2006! Afora mexericos e otras cositas más, o tempo só esteve para rebeliões, de modo que a marginália continuou sob os holofotes.
Procuro daqui, procuro dali, e acabo na orla de Fortaleza em meio a uma multidão que, aos gritos, incentivava um casal que se conhecia biblicamente, esquecendo abertas as cortinas do quarto do hotel. O desempenho mereceu registros que, publicados na rede, foram vistos por milhares de voyeurs.
Avesso a adjetivos, continuei minha busca até dar com os olhos em uma notícia que vinha de Belo Horizonte. Tratava-se de um pedido protocolado por alguns historiadores no Iepha (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais); nele, solicitam a exclusão dos nomes de três ‘falsos inconfidentes’ do Monumento à Terra Mineira, inaugurado em 1930 em homenagem a bandeirantes paulistas e inconfidentes.
Lido o tal artigo, bateu-me a dúvida: como não acreditar piamente nas aulas de Dona Benedita, jurando de pés juntos que a conspiração havia sido desmantelada em 1789? Para o menino atento às aulas, só essa data já o enchia de admiração e respeito pelo levante de Vila Rica. Por sua vez, o artigo afirma que o movimento contra a Coroa Portuguesa deu-se em 1792!
- Dona Benedita? Então foi no mesmo ano da Revolução Francesa?!
- Isso mesmo! Mas, atenção meninos, só em 17 de abril de 1792 é que foi lida a sentença na cidade do Rio de Janeiro. Doze dos Inconfidentes foram condenados à morte! Mas, no dia seguinte, leu-se um decreto de D. Maria I, pelo qual todos, exceto Tiradentes, tiveram a pena comutada. Tiradentes, nosso herói! Dona Benedita enchia o peito e pronunciava um herói pleno e aspirado.
A despeito dos três intrusos (o escravo Alexandre, Fernando José Ribeiro e José Martins Borges) que os historiadores afirmam não terem participado do levante, cá com os meu botões, pensei na repaginação sofrida pelo herói de Dona Benedita, empreitada levada a cabo pelos ideólogos positivistas na fundação da República.
Ao buscar em Tiradentes a personificação da República, o militar que tinha no máximo um bigode e que, na prisão, fora obrigado a raspar barba e cabelo par evitar piolhos, à beira do cadafalso, teve sua figura assemelhada a Jesus Cristo, ganhou camisolão e barba feito madeixa. 
Ah, há ainda as teorias conspiratórias! Mas o melhor a fazer é deixá-las de lado; porém, não deixa de ser instigante o relato do carioca Marcos Correa que, na Paris de 1969, ao pesquisar a vida de José Bonifácio de Andrade e Silva, encontrou a assinatura de um tal de Antônio Xavier da Silva, na lista de presença da Assembleia Nacional Francesa, bem ao lado da do Patriarca da Independência. Aí começam as suspeitas de um complô orquestrado pelos maçons em que há a similaridade de assinaturas, a troca de Tiradentes por um ladrão, sua fuga para a Europa... Os militares, no século XX, teriam se encarregado de apagar rastros e colocá-lo no panteão dos heróis nacionais.
De minha parte, procuro guardar o dito do mestre, cuja opinião era de que a lenda é melhor do que a história autêntica, razão pela qual não desacredito da ficção. A história de Tiradentes é mais um desses exemplos em que a ‘verdade’ das realidades usurpa a lenda metida nos livros. Para isso basta sair em busca do relato de Marcos Correa, bisbilhotar arquivos de bibliotecas e museus... quiçá não tenham sido destruídos.  O fato é que, para acomodar interesses, a história pode ser modificada pela ficção. Por isso mesmo Machado afirma ser possível inventar “um pássaro sem asas, descrevê-lo, fazê-lo ver a todos” e, ao fazê-lo, levar todos a acreditar “que não há pássaros com asas”.
Por fim, surpreendi-me mesmo foi com a notícia de que cientistas chegaram à conclusão de que as galinhas são mais inteligentes do que pensamos: são capazes de empatia, lógica e até alguma astúcia. Enfim, algum alento para a humanidade... 


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