Revista Philomatica

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Humanizando o passado


Mais uma vez a canalha política confirmou o clichê de que o Brasil não é para principiantes. Olhe para as leis, leitor, e veja como essas senhoras tornaram-se dissimuladas e traiçoeiras. Foi-se o tempo em que a elas nos dirigíamos respeitosamente e bradávamos hora ou outra dura lex sed lex. Volúveis, fanfarronas, hoje elas riem nas nossas caras e estão tão maleáveis quanto as verdades - ou pós-verdades - na boca suja da politicalha. A situação tem se tornado indigesta a ponto de até mesmo as generalidades na imprensa adentrarem a folha política - ou de polícia -, uma vez que celebridades, tomando-se por formadores de opinião, decidiram também vender suas pseudo-ideias.  
Parece-me que estamos a cada dia menos humanos. Não por outra razão, fui buscar a história de uma brasileira nas páginas francesas do Le Figaro. Trata-se de Marina Amaral, artista aqui da terrinha, cuja ocupação é passar horas e horas a fio trabalhando em fotos monocromáticas. Tudo o que faz, afirma Amaral, é tentar humanizar documentos, o que não deixa de ser ironia, comparando-se sua singeleza artística à truculência política.
Marina Amaral foi notícia aqui só porque, recentemente, foi notícia lá fora. Entrevo aí uma nesga do nosso velho complexo de vira-lata. Se o gringo diz ser bom, então tá, reconhecemos que é de fato bom. O lixo, a imprensa teima em nos oferecer diariamente, como o café, cujos melhores grãos são exportados e a nós, oferecem-nos palha e casca torradas, talvez pensando que não sejamos capazes de digerir pérolas, como as produzidas por Marina Amaral.
A artista trabalha em fotos pungentes de forma meticulosa e o caso de Czeslawa Kwoka foi singular. Kwoka tinha 14 anos quando, em 12 de março de 1943, sucumbiu no campo de Auschwitz, logo após ter recebido uma injeção de fenol em seu coração. Pouco antes, ela havia sido espancada por um Kapo e fotografada sob diferentes ângulos. Sua história jazia desconhecida do público até 12 de março último, quando Marina Amaral, tocada pelas imagens da garota ferida, mas que mantém a cabeça erguida, resolveu colorir suas fotos monocromáticas.
“Eu queria dar a ela uma chance de contar sua história e dar às pessoas a oportunidade de ver seu rosto em cores pela primeira vez”, disse a artista. Compartilhada no Twitter pelo memorial de Auschwitz, na Polônia, no dia do aniversário da morte de Czeslawa Kwoka, as fotos coloridas imediatamente viralizaram na web. “Recebi mensagens de todo o mundo, de pessoas totalmente diferentes, que entendiam minhas intenções”, afirmou Marina.
Aos 25 anos, esta colorista digital já conquistou um enorme público graças às fotos históricas em preto e branco às quais adicionou cor. Martin Luther King, Elvis Presley, Albert Einstein, a Rainha Elizabeth II, todos eles ficaram sob seus dedos de fada. A jovem brasileira, que já trabalhou em mais de duzentos clichês, afirma desenvolver uma atividade à qual não estava predestinada, pois estudava relações internacionais. Seu trabalho de formiguinha adveio depois de descobrir na internet uma coleção de fotos coloridas da Segunda Guerra Mundial. Marina então decidiu reproduzir a técnica, meio que intuitivamente e, com o tempo, descobriu seu próprio jeito de trabalhar.
Quando finalmente encontra uma foto acessível, “com uma história pungente por trás dela”, Marina inicia um processo de investigação sobre a origem e a história da foto. Esse trabalho demanda um tarefa meticulosa, cujo objetivo é fazer com que a imagem permaneça o mais fiel possível em relação ao slide. Isso pode durar semanas, explica Marina. “Se, por exemplo, eu tenho uma imagem de um conflito armado, vou procurar as cores originais dos uniformes, medalhas, botas, veículos, pele, olhos e cabelos da pessoa ou personagens, quando é possível. Eu também tento encontrar instantâneos recentes dos locais das fotografias”, detalha Marina.
Todo o trabalho artístico de Marina faz com que o passado seja redescoberto de forma diferente. Marina não descobriu a pólvora, diga-se, já que o processo de colorir fotos não é novo, traços podem ser encontrados já em 1840 nas obras do famoso fotógrafo suíço Johann Baptist Isenring, contudo, Marina é prata da casa, e só por isso deve ser incensada, admirada. Infelizmente, o espaço que as redes sociais concederam a Marina só encontrou correspondente na imprensa francesa, sob a pena da jornalista Ludivine Trichot.
Para conhecer o trabalho de Marina acesse:
E se você se apaixonar pelo trabalho da artista, há o livro The Colour of time: a new history of the world (1850-1860), de Dan Jones & Marina Amaral, lançado recentemente pela Hardcover. É só apreciar!

Foto: Czeslawa Kwoka, vítima da barbárie nazista no campo de Auschwitz, Memorial de Auschwitz/Marina Amaral.

domingo, 8 de abril de 2018

Salvem o Homem!

“O Evangelho fala ao meu coração”, escreveu um dia Rousseau. Machado de Assis, que costumava escrever nas horas mortas, em uma de suas crônicas afirmou que a tragédia do Gólgota faz parte dessa meia dúzia de assuntos que não envelhecem nunca. E mais: Machado dizia que “o belo sermão da Montanha, as parábolas de Jesus, os duros lances da semana divina, desde a entrada em Jerusalém até à morte no calvário, e as mulheres que se abraçaram à cruz, [...] tudo isso [...] faz sentir e pasmar”.
O Filho do Homem, em um de seus últimos e dolorosos lances, pediu ao Pai que perdoasse os homens porque estes não sabiam o que faziam. Se não me falha a memória, depois de ter chegado ao local da crucificação e, diga-se, ter sido preterido a Barrabás, o ladrão. Coloquei a última parte do parágrafo anterior no imperfeito, embora desconfie ter cometido não um erro gramatical, mas moral. Talvez o tempo presente verbal fosse mais justo com nosso estado de coisas.
Pensando nas linhas em branco à frente, não deixo também de pensar em Rousseau e Machado, homens que talvez soubessem o que faziam. Ocorre-me também que faziam parte, de certo modo, daquela pequena parcela que maneja as ideias com sensatez, longe da maioria, que mantém as engrenagens girando por pura força bruta!
De qualquer modo, mesmo entre os pecadores surge uma centelha de esperança. Entre as notícias da última semana, uma delas chamou a atenção por seu caráter insólito. Republicada em diversos periódicos, poucos notaram um quê de poeta e louco no agressor do ator que representava o soldado romano, sim, porque só poetas são gênios e só os loucos deliram – e está aí Aristóteles que não me deixa mentir! Gente normal, centrada em seus próprios interesses, defende Barrabás!
Vá lá, contextualizando a prosa acima: na semana santa passada, em uma representação da Crucificação, na cidade de Nova Hartz, Rio Grande do Sul, um homem invadiu o palco para defender O Cristo, atacando o ator que representava um soldado romano, justamente no instante em que este fustiga o Filho do Homem com uma espada. O vídeo tornou-se viral e provocou risos e comentários da massa hipócrita, que, não sei porque razão, resolve praticar o humanismo e a caridade, nessa única semana, esquecendo-se de que os anos são feitos de dias, semanas e meses.
O fato é que depois de os homens terem optado por Barrabás e matado o Filho do Homem, alcunha que o identificava com a humanidade, os homens mataram o próprio Pai. Célebre é a frase: “Deus está morto.” Contudo, alguns poucos insistem em fugir da desesperança, o que irrita muita gente. Recebi, há dias, trechos de uma entrevista antiga em que o jornalista Geneton Moraes Neto entrevistava o poeta Ariano Suassuna (ambos mortos). Veja você leitor, o porquê de alguns poucos se apegarem ao metafísico e disso fazerem vibrar a vida:

Geneton: Você (pausado), acredita em Deus?
Suassuna: Acredito!
(Olhar incrédulo de Geneton.)
Geneton (olhar irônico): Como é isso?
Suassuna: Eu não conseguiria conviver com essa visão amarga, dura, atormentada e sangrenta do mundo. Então, ou existe Deus ou então a vida não tem sentido nenhum. Bastaria a morte. Leandro Gomes de Barros, a meu ver, formulou muito melhor o que eu disse. Essa pergunta... que a pergunta mais séria que as pessoas que não acreditam em Deus pode fazer aos que acreditam. Repare, ele disse: “se eu me encontrasse com Deus, seu conversasse com Deus, iria lhe perguntar: por que é que sofremos tanto, quando viemos pra cá? Que dívida é essa que o homem tem que morrer pra pagar? Perguntaria também como é que ele feito, que não dorme, não come, e assim vive satisfeito. Por que foi que ele não fez a gente do mesmo jeito? Por que existem uns felizes? E outros que sofrem tanto? Nascidos do mesmo jeito, criados no mesmo canto? Quem foi temperar o choro e acabou salgando o pranto?”
Veja que coisa linda!, afirma Suassuna.
(Olhar irônico e incrédulo de Geneton! Olhar da razão superior!)
Suassuna (continua): Isso coloca em questão a própria existência de Deus, porque é como se Deus tivesse querido o choro e acabou errando na mão, como se Deus fosse capaz de dar um erro, e infringido um sofrimento terrível ao ser humano. “Quem foi temperar o choro e acabou salgando o pranto?” Pois é, então Deus pra mim é uma necessidade. Se eu não acreditasse em Deus eu seria um desesperado.
(Olhar e expressão de fé de Suassuna.)


Mas Suassuna era poeta – ou louco, pode argumentar muita gente, sobretudo a juventude desesperançada e perdida de hoje. Mas não é só a juventude, há aqueles que já se tornaram autobiográficos, e, por se acharem transcendentais, matam o Filho do Homem quotidianamente. Ontem, por exemplo, o historiador Boris Fausto comentou a empreitada do ex-presidente condenado à prisão. Segundo Boris Fausto, o ex-presidente está empenhado na construção de uma imagem grandiosa, a do Cristo, que se sacrificou pela humanidade; um Cristo leigo, no caso. E nós, mortais, continuamos a escolher Barrábas a cada quadriênio! Pobres de nós! Continuamos a não saber o que fazemos!

sexta-feira, 30 de março de 2018

Fake do Fake: mais do mesmo!


Admitam ou não, a dissimulação é um dos constitutivos da natureza humana. Antes mesmo de ensaiar seus primeiros passos, o menino já não mais choraminga para ter sua fome saciada, mas para obter atenção. Tempos depois, correndo pelos campos, disfarça, inventa, fantasia desejos e vontades e, para satisfazê-los, aprende a fazer uso da máscara social.
Não há ingênuos nesse quesito! Ainda pequeno, o menino desenvolve com insuperável habilidade a dissimulação. Por uma razão ou outra, finge gostar ou não gostar. Os verdes anos obscurecidos pela poeira do tempo, e ele torna-se mais cruel. O interesse, grande vórtice que move o menino e o homem, adquire status bastante pessoal. Não raro, menino e homem voltam o olhar oblíquo para o próprio umbigo, que subtrai não só a visão periférica, mas faz com que ambos sequer enxerguem as pessoas à sua frente. A eles, chamemos agora egocêntricos, egoístas.
Os interesses, grande motor social, expandem-se, e seus tentáculos, antes circunscritos ao privado, ampliam-se absorvendo o público. As duas bandeiras – privada e pública – confundem-se, razão pela qual, a canalha política trata o público como se fosse coisa sua, manipulando-a em função de seus próprios interesses e em benefício de seus asseclas. Estes, como moscas no mel, agem nos bastidores, executando, muitas vezes, o serviço sujo. Não à toa os portugueses cunharam o aforismo: “Moscas apanham-se com mel, não com fel.”
Nessa nossa Era do Caos, um desses servicinhos sujos é a criação de notícias falsas, algo do qual tanto falei aqui. Afinal, que mal tem? Uma mentira aqui, uma calúnia ali, um boato acolá, ora, isso não mata ninguém! A polarização dos interesses, sob farisaísmo ideológico, tornou-se um grande negócio. Ambos os lados fazem uso do mesmo garfo, mas juram provar pratos diversos. Ao fazê-lo, não fazem nada além de dissimular; sofistas, utilizam-se de argumentos especiosos na tentativa de convencer e cooptar a massa para projetos que visam a satisfação de seus interesses. Nessa lógica, melhor e mais eficiente que matar é inventar narrativas, na tentativa de vergastar o opositor.
Ao leitor nada mais resta que desconfiar de tudo e de todos. Houve um tempo em que as pessoas davam certo crédito à imprensa, contudo, hoje, até mesmo a dita grande imprensa deixou-se corromper. Corrigindo-me: corrompeu-se há muito tempo, porém agora o faz de modo descarado.
A notícia, publicada no site IssoÉNotícia, informa sobre um levantamento realizado pela Associação dos Especialistas em Políticas Públicas do estado de São Paulo (AEPPSP), que, a partir de critérios elaborados por um grupo de estudo da Universidade de São Paulo (USP), o Monitor do Debate Político no Meio Digital, identifica os maiores sites de notícia no Brasil que disseminam notícias falsas e boatos. Estes, uma vez jogados nas redes sociais têm efeito semelhante ao de um rastilho de pólvora.
A notícia é velha, de janeiro do ano passado, mas como os interesses não se avelhantam, ela foi republicada e exaustivamente compartilhada por leitores ingênuos e sobretudo por maliciosos dissimulados de cidadãos ciosos em esclarecer sobre a verdade dos fatos – ou pós-verdades.
Ocorre que a notícia elenca uma série de características comuns aos sites que propagam notícias falsas e, dentre elas, as três primeiras chamaram-me a atenção pela obviedade, mas vá lá:
1. Foram registrados com domínio.com ou.org (sem o.br no final), o que dificulta a identificação de seus responsáveis com a mesma transparência que os domínios registados no Brasil.
2. Não possuem qualquer página identificando seus administradores, corpo editorial ou jornalistas. Quando existe, a página 'Quem Somos' não diz nada que permita identificar as pessoas responsáveis pelo site e seu conteúdo.
3. As "notícias" não são assinadas.[1]
Isto posto, bisbilhotando aqui e ali, descubro que tinha sob os olhos uma fake news sobre fake news, só que agora em uma página identificada! Vejam:


Uma matéria de janeiro de 2017 do IssoÉNoticia sobre um suposto estudo da USP foi reproduzida em março pela Esquerda Valente e agora mais uma vez pelo blog Contraponto.
Atualizando o alcance das matérias sobre o caso:
1) IssoÉNotícia: 138 mil compartilhamentos
https://www.issoenoticia.com.br/…/projeto-da-usp-lista-10-m…
2) Contraponto: 84 mil compartilhamentos
http://www.contraponto.blog.br/artigos/…/mbl-noticias-falsas
3) Pensador Anônimo: 2 mil compartilhamentos
https://pensadoranonimo.com.br/mbl-e-o-maior-difusor-de-no…/
Identificamos outras 5 fontes que somam menos de mil compartilhamentos. O site Esquerda Valente tirou a matéria do ar.
Mais uma vez tentamos esclarecer o caso.

No fim de janeiro circulou uma matéria da IssoÉNotícia sugerindo que havíamos feito um levantamento dos 10 maiores sites de notícias falsas do país. Esclarecemos nesta página que nunca havíamos feito tal levantamento que tudo passava de um grande mal-entendido. O site boatos.org deu uma nota sobre a notícia falsa (http://www.boatos.org/…/usp-lista-10-maiores-noticias-falsa…) e mais tarde a SuperInteressante elegeu o caso como uma das maiores notícias falsas da internet. O site corrigiu a matéria atribuindo o levantamento à Associação dos Especialistas em Políticas Públicas de São Paulo (AEPPSP) que teria se embasado em nossos estudos (todos publicados nesta página).
Ontem a página Esquerda Valente reacendeu a polêmica publicando uma matéria com a manchete "MBL é o maior difusor de notícias falsas, conclui pesquisa da USP" (http://aesquerdavalente.blogspot.com.br/…/mbl-e-o-maior-dif…). Hoje o mesmo Esquerda Valente insistiu e soltou outra matéria relacionada (http://aesquerdavalente.blogspot.com.br/…/estudo-da-usp-cla…) que levou a AEPPSP a solicitar que a menção à associação fosse retirada da matéria com a seguinte explicação: "Retiramos a publicação do ar depois da transformação de um post que realizamos em uma notícia falsa. A disseminação dessas informações nos traz muitos inconvenientes."
Mesmo com todo esforço em desmentir o caso, a matéria da Esquerda Valente sobre o suposto estudo chegou a mais de 45 mil compartilhamentos e requentou a matéria de janeiro da IssoÉNotícia que chegou a 101 mil compartilhamentos.[2]

Não bastassem os esclarecimentos, a notícia pipocou na última semana ao sabor dos interesses. Por isso, leitor, não importa a banda em que toque, desconfie sempre!


[2] Trechos extraídos da página do facebook do Monitor do Debate Político no Meio Digital
[1] https://www.issoenoticia.com.br/artigo/projeto-da-usp-lista-10-maiores-sites-de-falsas-noticias-no-brasil

domingo, 25 de março de 2018

Sons do silêncio


“O silêncio é como um câncer que cresce”, afirma Paul Simon, na célebre canção interpretada por ele e Garfunkel, seu amigo. Mas isso é questão de ponto de vista. Contudo, o que se viu na última semana só comprova o dito de Simon. A enxurrada de informação é tanta que estamos entorpecidos, o que é muito bom obrigado àqueles que diariamente se encarregam de nos transformar em seus títeres, sufocando-nos a garganta, impedindo-nos de gritar. Resta o silêncio.
Mas a culpa é só deles? Ora, não! Não mesmo! Temos nos mostrado um tanto displicentes com a vida que se esvai ao nosso lado, relapsos com a cortesia, indolentes com a natureza, indiferentes a tudo e só preocupados com nosso próprio umbigo e nossas ideiazinhas medíocres!
Na Libéria, dois sapiens ofereciam uma águia em extinção. Presa em um quintal, a ave mostrava debilidade física, asas e alma alquebradas; a corda que a prendia ao poste não ultrapassava um metro de extensão. Por um desses acasos que afrontam a natureza, apareceu um homem interessado em comprá-la. Negociação realizada, a homem deu voz de prisão aos vendedores; tratava-se de um oficial da polícia ambiental. A ave, depois de receber cuidados médicos, ganhou a natureza. No caso, alguns sussurros devassaram o silêncio, haja vista os sapiens terem transformado a vida dos animais na terra em um inferno.
Ainda esta semana, partiu Sudan, o último rinoceronte branco, representante macho dessa subespécie. Vale destacar que os sapiens também não proporcionaram uma vida fácil a Sudan, que passou a maior parte dela na República Tcheca, para onde foi enviado ainda menino. Nascido no Sudão (donde o nome), Sudan voltou para o Quênia, onde faleceu aos 45 anos. Mas, para que chegasse a essa idade, foi intermitentemente sedado para que seu chifre fosse cortado. Caso contrário, mesmo em santuários ecológicos, os traficantes poderiam tê-lo matado para atender à ignorância de outros sapiens, espécie dita racional. Com a partida de Sudan, apenas o sussurro de alguns homens e mulheres incomodaram o silêncio da grande massa amorfa e desinteressada.
Na Síria, crianças caem ao solo feito fruta madura ao sabor de bombas e torpedos que irrigam o solo árido das cidades. Malgrado o ressoar local das explosões e os gritos lancinantes da carne que sangra, e da vida que murmura por ajuda em seus últimos instantes, nos grandes centros da Europa e da América (também a Latina), os interesses silenciam poderosos, intelectuais e ativistas tout court.
À espera da terra arrasada, bombas e morteiros são tomados por fogos de artifício. Depois do longo silêncio que há de vir - e virá - com a morte de homens, mulheres e crianças, as grandes nações e a benemérita ONU, surgirá no horizonte pronta a tudo reconstruir. Haverá um grande ruído, que se transformará em alarido, gritos e berros, quando todos haverão de bradar sua comiseração e bondade. O silêncio há de ser quebrado!
No Rio de Janeiro e em centenas de outras cidades brasileiras, jovens pobres, homens, mulheres e crianças, quotidianamente caem como frutos podres e adentram o silêncio da morte e o esquecimento. Os sapiens da canaille, seja ela de Brasília, Rio ou Maceió, recolhem-se ao silêncio. Covardemente, calam-se face ao sofrimento e gritos lancinantes de desespero, desalento e dor! A massa, embrutecida, prefere a hostilidade, a peleja rasteira de ideias nas redes sociais, agredindo-se mutuamente e fazendo ecoar, cada uma das partes, o eco triunfante da verdade, sufocando o rumorejo daqueles que, de fato, provam do cálice amargo da perda e do sofrimento.
A indiferença prevalece, as ideias gritam nos panfletos, os sapiens autoproclamados (ou por suas corriolas) líderes anunciam aos berros o mundo ideal e a massa, fadada ao abandono, sussurra o som do silêncio. A saída parece ser o clamor, ainda que silencioso, da partida. Abraçar o silêncio, enfim!

sábado, 17 de março de 2018

Que graça tem a tolerância?


Parece-me, nenhuma! À primeira vista, a resposta ao título parece surpreender, afinal, na Era do Caos em que vivemos, é incontestável a militância em favor dos direitos humanos, ainda que em muitos aspectos tenhamos caminhado para trás. Hoje, para reivindicarmos alguma tolerância, sufocamo-nos em rótulos e fobias. Não bastassem os preconceitos raciais e sexuais, compartimentamos as variantes, e incitamos a militância, acreditando assim salvar o mundo da intolerância.
Para cada rótulo, seja ele racismo, homofobia, gordofobia, machismo, misoginia, misandria, sexismo, antissemitismo, misantropia, etnocentrismo, xenofobia, etc etc etc há uma antinomia propalada pela militância, lamentavelmente, por meio de discursos líquidos. Ocorre que o excesso de rótulos mais atrapalha que ajuda, isso porque os usuários se perdem na defesa de uma causa específica, relativizando as demais. Ao fazê-lo, na maioria das vezes apropriam-se das armas e métodos do opressor e/ou preconceituoso racista, capitalista, facista ista ista (sonoro isso, as pessoas adoram)!
Nas redes sociais a intolerância pulula, e não raro vem embalada em frascos diminutos contendo pequenos textos denunciatórios e opiniões disseminadas em comentários a reportagens ditas politicamente incorretas. Ao contestar o não politicamente correto, o internauta escorrega, divide o prato com o intolerante e janta do mesmo ódio. Satisfeito, não se dá conta de que sequer conseguiu disfarçar o ódio que habita sob sua epiderme.
Tratando-se de celebridades idealizadas, partidários da Escola do Ressentimento, sobretudo, cometem certo deslize e se mostram tal como são ao torcer pontos de vistas para que estes se adaptem a um discurso inconspurcado. É a velha história de ajustar a causa ao poema. Temerosos, sub-repticiamente lançam mão do “eu lírico” para justificar o que consideram politicamente incorreto, mas tudo está lá, na obra, na letra da canção! Ora, ao fazê-lo, preconizam a perfeição em seres humanos passíveis de erro! O mal, a raiva, o ódio, querido leitor, não é algo extrínseco ao homem. Muito pelo contrário! O mal tem natureza humana, senta-se à mesa do jantar, seja em lares pudicos e conservadores, seja nas moradas dos mais liberais e dedicados defensores de rótulos e minorias.
Ao reproduzir uma notícia falsa, por exemplo, no intuito de fustigar aquele que não escolheu a mesma ideologia que ele para ler e interpretar o mundo, o internauta, lá no fundo, assoma o desejo mais profundo de vergastar seu adversário. Afinal, se esquece de que toda ideologia é mentirosa e crê-se “o dono” de supostas verdades. E não falo aqui de seu desejo, também profundo, de se expor nas redes sociais como humanista bonzinho, fazendo disso um hábito fictício, não raro contagioso e, arrisco, pornográfico.
As ideias se relativizam e o que se nota é um atraso cultural, cuja pungência em nossos dias se assemelha a uma doença em estado de metástase. São opiniões e textos pautados por singular brutalidade, de valor estético rasteiro, e que creditam toda e qualquer injustiça social à luta de classes, por exemplo. O preconceito linguístico aventado pelo aluno vislumbrado com o mote da supremacia da oralidade à norma erudita beira à ingenuidade. “Bagna-se” de ideias geradas em uma diegese linguística, apartada do mundo real, esquecendo-se de que seu guru, nos momentos raivosos, clama-se pela guilhotina àqueles que não se ajustam aos seus dogmas.
Nesse panóptico digital, todos vigiam-se continuadamente e a alienação advém do fato de que para aglutinar a atenção e mobilizar seguidores e likes, o discurso torna-se amorfo, as opiniões são instáveis e os resultados são incalculáveis. Não por outra razão, tudo é fugaz e se dispersa ao sabor de novas crenças e ideologias, afinal, fatos não interessam mais, pois, estes, para o bem ou para mal, trazem a acidez da verdade. O que sobra é ler a favor de uma ideologia, algo que, trocando em miúdos, é o mesmo que não ler de modo algum!
E tudo isso, c'est pas la faute à Voltaire!



sexta-feira, 9 de março de 2018

A fuga de Graziella, a cachorrinha de Machado de Assis


Não se pode levar tudo ao pé da letra, sobretudo quando se trata de escritores cheios de estratagemas e artimanhas. Esqueça, por exemplo, aquele entrecho de Memórias póstumas em que uma borboleta preta adentra o quarto de Brás Cubas, esvoaça em torno da venal e voluntariosa personagem, pousa em sua testa, provocando-o, até que Cubas, aborrecido, lança mão de uma toalha e atinge mortalmente o pobre lepidóptero.
Não, não se pode ler de modo rasteiro e deduzir que Machado não dava a mínima a esses pobres insetos cujas asas assemelham-se às palhetas de um Monet ou um Van Gogh. De minha parte, prefiro o lado madrugador do Bruxo, revelado em uma crônica da Semana, de fevereiro de 1893. O entrecho é delicioso: “É meu velho costume levantar-me cedo e ir ver as belas rosas, frescas murtas, e as borboletas que de todas as partes correm a amar no meu jardim. Tenho particular amor às borboletas. Acho nelas algo das minhas ideias, que vão com igual presteza, senão com a mesma graça.”
Machado não tinha apreço só às borboletas. Curioso também é um fato ocorrido na vida do grande escritor em fins de fevereiro de 1879. No episódio, a protagonista é ninguém menos que Graziella, uma tenerife mimada por Machado e Carolina, sua esposa. A cachorrinha ganhou o nome em homenagem a uma heroína romântica de Lamartine.
Machado, à época, adoecido, transferiu-se do Rio de Janeiro para Friburgo, onde passou uns três meses repousando. Foi quando deixou Graziella aos cuidados de Clara, uma empregada. Acontece que Graziella, curiosa, resolveu explorar as adjacências e não voltou para casa. 
Alarmada, Clara entra em contato com os vizinhos, que tinham sido incumbidos pelo casal de olharem a casa enquanto estivessem ausentes. Logo que recebe a notícia, Machado telegrafa para amigos e lhes pede que coloquem anúncio nos jornais, oferecendo uma gratificação de cem mil-réis àqueles que encontrassem e devolvessem Graziella.
Assim que recebeu o telegrama de Machado, Joaquim Arsênio Cintra da Silva, amigo do escritor, prontificou-se em publicar anúncios no Jornal e na Gazeta, incumbindo-se ainda de fazer outros anúncios minuciosos, logo que tivesse mais detalhes do desaparecimento.
Nos dias 2 e 3 de março de 1879, apareceram no Jornal do Commercio e na Gazeta de Notícias o seguinte texto:


Os anúncios deram resultado, pois Graziella foi encontrada e entregue no endereço indicado, reunindo-se ao casal logo depois de sua volta ao Rio de Janeiro. Graziella, por sua vez, deve ter abanado o rabinho, feliz por rever o Bruxo do Cosme Velho, que não amava só as borboletas.
Curiosa, Graziella não quis mais saber de surpreender o escritor durante o longo tempo em que viveram juntos.   

sexta-feira, 2 de março de 2018

Roda quadrada egípcia é encontrada no Brasil

Em busca do carro das ideias, corro os olhos por diferentes periódicos e sites de notícia, o que me levou, uma vez mais, a refletir sobre os benefícios e malefícios da imprensa.
Em 1859, na Revista O Espelho, Machado de Assis publicou um pequeno texto chamado “A reforma pelo jornal”. Nele, chamava o jornal de fiat humano, algo que faria tremer as aristocracias; dizia ainda que o veículo tende à unidade humana, ao abraço comum e que a “primeira propriedade do jornal é a reprodução amiudada, é o derramamento fácil em todos os membros do corpo social”.
Mas, hoje, refletindo sobre o que nos é oferecido, cabe questionar: que abraço é esse? O que nos é derramado de modo tão democrático? O que tem feito esta alavanca que Arquimedes pedia para abalar o mundo?
Um leitor contumaz de livros, objetos que trazem “alguma coisa de limitado e de estreito se o colocarmos em face do jornal”[1], ao deparar-se com os jornais atuais, choca-se e tem ímpetos, no mínimo, psicopáticos: perde seus afetos mais profundos, a incapacidade de respeito, arroga-se extremo egocentrismo e nutre vontades de matar, de modo lento e doloroso, o jornalista ou seja lá quem for que tenha escrito o texto.
O porquê disso tudo? Ora, leitor, não há mais grande jornalista. Este espécimen está extinto. Vivemos a época dos grandes furos de reportagem e da venda de ideias; não se vendem mais fatos. A imprensa, zelosa de seus interesses, deforma a realidade, esconde- a do leitor, que, na origem, era sua razão de existir. A imprensa não mais precisa de leitores. O poder, naquilo que este representa de mais pernicioso, é seu grande financiador, sua razão de existir. Por isso, e só por isso o abraço comum que hoje recebemos da imprensa é um abraço de Judas; somos por ela traídos todos os dias. Regados com baldes de estupidez e obtusidade, nós, o jardim que ela crê ressequido, incapaz de florescer por nossa própria conta ao orvalho de nossas escolhas, somos alienados por essa meretriz. 
É certo que sempre lançamos mão uma ideologia para interpretar o mundo, mas, com o desparecimento do jornalista, adentraram as redações os estagiários. Estes, em geral doutrinados em criar factoides, insistem que leiamos a mesma cartilha que lhes foi oferecida, subtraindo-nos o conhecimento e nossas próprias escolhas. O resultado é que até mesmo nos assuntos mais palatáveis e exóticos, a imprensa tem se empenhado em entorpecer e debilitar o leitor.
Há pouco li uma matéria intitulada Experimento pode ter resolvido mistério na construção das pirâmides[2], de autoria de Thaís Uehara. Em seis curtos parágrafos, Uehara mostra-se maravilhada com a provável descoberta de um grande mistério: como os egípcios alinharam a pirâmide de Quéops com os pontos cardeais. Até aí, vá lá, cada um maravilha-se com o que quer. Mas o imperdoável é Uehara ter afirmado em um texto tão curto e simples, em que às sinapses não é oferecido trabalho algum, que “os egípcios sequer conheciam a roda, quanto menos bússolas.”!!!
Ah, minha apedeuta, por que insiste em nos abraçar assim, em regar nosso jardim com tanta estupidez? Pergunto-me se Uehara não se deixou levar por Glen Dash, autor do artigo publicado no Journal of Ancient Egyptian Architecture, do qual chupou suas garatujas, assinando-as. Certo, a partir deste exemplo temos um parâmetro do que se oferece aos leitores todos os dias. O lamentável é que jovens leitores, dada a condição atual de nossa educação, acreditarão em Uehara e acharão que os belos carros egípcios expostos no Museu do Cairo são invenções hollywoodianas.
Embora a bússola tenha sido inventada pelos chineses muito tempo depois, talvez nós é que não tenhamos descoberto a bússola egípcia. Digo isso porque em 1906, na tumba de Kha foi encontrado um objeto oco de madeira com uma tampa articulada[3] que, segundo Amelia Sparavigna, física da Politécnica de Turim, “poderia ter sido usado para determinar a inclinação de certos ângulos. Os números se assemelham a uma bússola, com 16 pétalas espaçadas cercadas por uma forma circular em ziguezague, com 36 cantos. Quando o lado direito do objeto é colocado em um ângulo, Sparavigna acredita que um fio de prumo iria mostrar sua inclinação no mostrador circular”.
Felizmente, Sparavigna nos dá um abraço de alento, negado por Uehara! Mas Sparavigna não é jornalista! Salva pela física, acreditemos, pois, na imprensa! Ela não mente, não pactua com os ímpios, não comete falso testemunho! Nunca!






[1] MACHADO DE ASSIS. O jornal e o livro. Publicado originalmente no Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 10 e 12/01/1859.
[2] http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/historia-hoje/misterio-alinhamento-ramides.phtml#.WpbslejwbIX
[3] http://antigoegito.org/artefato-egipcio-pode-ter-sido-o-primeiro-transferidor-do-mundo/

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Todynho, Vittar e algum equívoco


“O diabo mora nos detalhes.” Alguns, afirmam tratar-se de um provérbio inglês; outros juram que sua origem é alemã. Opiniões, pontos de vista? De minha parte, penso que o tinhoso mora mesmo é nos equívocos. Vejam só: muita gente ora a Dominus, ou Oração do Pai Nosso, utilizando “perdoai as nossas ofensas”; outros, por sua vez, optam por “perdoai as nossas dívidas”. Problemas de tradução: Mateus escrevendo em aramaico e Lucas em grego. Resumindo o intróito: traduz-se daqui, verte-se dali, entrevê-se o desentendimento do leitor, opta-se por um sinônimo que é quase a mesma coisa e o resultado é que toda a vez que o crente eleva seus olhos para monte em busca de socorro, a ideia de obrigação financeira se faz presente.
Também houve um tempo em que se prendia por dívidas. A coisa passa pela Grécia Antiga, Roma, Idade Média e chega até a Idade Moderna. No Brasil - tranquilize-se, leitor -, o art. 5º, LXVII da Constituição de 1988 preconiza que não haverá prisão civil por dívida.
Pura retórica! Traficantes e bandidos de colarinho branco, embora não leiam a Constituição, também não mandam os devedores para a prisão: são mais ágeis, encaminham-nos diretamente ao autor da Dominus. O fato é que essa questão já havia sido equacionada há tempos por meio de uma outra oração, o credo capitalista.
Ora, todos vivemos em função de mitos. Essa balela de realidade, fatos e veracidade são caminhos tortuosos que procuramos para fundar nossas crenças e, assim, fortalecermos nossas narrativas. É tudo tão claro, leitor! Alguma dúvida? Ah, obtuso leitor, nunca lançaste teu olhar para as ficções jurídicas?
Assim como o imaginário popular é capaz de produzir as maiores absurdidades e torná-las ideologias, crenças e verdades, essa mesma imaginação também criou a ficção jurídica. As grandes corporações da nossa era são invenções do credo capitalista, mas seria desonesto ignorar nesse credo capítulos e sermões das religiões teístas e, sobretudo, das religiões inspiradas e/ou baseadas em leis naturais como o nacionalismo, o nazismo, o comunismo e o liberalismo. Acredite, cada uma delas, à sua maneira, com seus escritos sagrados, seus livros proféticos, corroboraram para a construção das ficções jurídicas.
Essas ficções jurídicas, às quais cremos e servimos (você só compra um aparelho Apple, toma uma Coca-Cola, come um sanduíche do MacDonald’s porque está certo da garantia e qualidade de seus produtos, confia neles), cujos tentáculos alcançam lugares por nós sequer imaginados, destroem muito da retórica e do discurso multiculturalista em moda nas redes sociais e universidades, além de, é claro, mais uma vez, dar razão a Adorno, quando este diz que toda “ideologia é inverdade, falsa consciência e mentira”.
Tome-se por exemplo Pablo Vittar e Jojo Todynho, duas das celebridades mais queridas da militância técnica inflada de razonite que orbita a mídia e as redes sociais. Esses formadores de opinião não só dizem às desbragadas, mas escrevem páginas e mais páginas afirmando que os performáticos cantadores representam minorias excluídas pelo sistema e pela sociedade branca, hétero, elitista, capitalista e fascista. Não nego - e nem posso! O óbvio é ululante! O que não concordo é com a afirmação de que esse empoderamento é tão exponencial e significativo que obrigou até mesmo a Rede Globo a meter-se de joelhos.
Ora, eis aí o equívoco meu caro leitor, a nesga que abriga o belzebu. Será que essa gente toda não sabe que a Rede Globo é, de fato, uma ficção jurídica cujos tentáculos são verdadeiramente globais? Vittar e Todynho só caíram nas graças da massa porque a corporação assim o quis! Para ela, a corporação, Vittar e Todynho não são mais que graxa a lubrificar as engrenagens da máquina, para que ela gire continuadamente.
E como os performáticos cantadores alimentam os interesses da grande corporação? No processo, a corporação coloca todo o seu corpo em ação: primeiro, seus veículos de imprensa começam a insuflar o leitor aqui e lá sub-repticiamente, lançando seus nomes a esmo. Depois, elevam da massa os cantadores tornando-os identificáveis e, é claro, dada a origem, o meio e o gosto de ambos, atribuem a eles certa representatividade sobre a parcela da qual pretende arrebatar alguns caraminguás. Espalha-se a nova por meio de blogs, youtubers etc e tal. Próximo passo: as rádios da corporação soam alto e seguidamente a voz dos cantadores. Logo, quando já são garantia de alguma audiência, são levados aos diferentes programas e talk-shows da corporação. Está feito o produto que, por algum tempo, manterá suas engrenagens girando até que venha a próxima causa, o próximo representante.
A massa, distraída, acredita ter separado o joio do trigo e não se dá conta de quem a aliena e que se aliena. Por isso, achei curiosa a imagem da escola de Samba Tuiuti que, compartilhada à exaustão, reproduz mãos que manipulam e conduzem marionetes. Com olhar de míope, vi marionetes manipulando marionetes. Como escapar disso tudo?


sábado, 17 de fevereiro de 2018

As penas da passista


Ana Beatriz Godói, bom dia! Não a conheço, por isso desculpo-me de antemão o envio desta carta aberta que, de certo modo, introduz-me no mundo das subcelebridades. Sou um simples professor, profissão marcada pelo desrespeito e a indiferença de toda uma sociedade que, hipócrita, não se incomoda em ver o grosso das verbas públicas serem destinadas a eventos carnavalescos e não à educação.
Mas não se incomode. Não vim aqui falar mal do palco em que você brilha por 65 minutos, uma vez ao ano. Poderia, é claro, trazer outros argumentos, fazer comparações, falar do palco dos professores, local em que permanecem, às vezes, dez, doze horas por dia e, ainda assim, são ofuscados pela mediocridade, a hipocrisia e a ignorância de uma sociedade afeita ao espetáculo, ao superficial, e que sequer sabe bem e direito o que seja de fato cultura.
Não vou falar disso. Você me chamaria de invejoso, afinal nem mesmo do mundo das “subs” faço parte. Reitero minhas desculpas por esse palavrório todo. Venho até você em razão da reportagem que acabo de ler na Folha de São Paulo[1]. Ali, publicaram uma foto sua, na qual exibe uma folha de papel que, suponho, seja o Bolhetim de Ocorrência contra a ativista Luísa Mell.
Vou começar pelo fim, afinal, seus argumentos primeiros são tão rasteiros e risíveis, que não valem a pena uma paradinha! Bem, ao final da reportagem lemos: “Se os animais são respeitados e o material tem procedência, qual a razão de polemizar? Não podemos admitir esse radicalismo. Estamos falando de cultura, de povos e de tradições. Não podemos deixar tudo isso para trás por conta do radicalismo e da opinião de subcelebridades.”
Ora, Godoizinha, sejamos honestos, espero que tenha sido seu advogado o autor do texto, caso contrário, lamento dizer que o que você exibiu em penas, faltou-lhe em neurônios e sinapses. Acho mesmo que a razão de você ter se irritado com Luísa Mell foi ela ter tocado em seu ponto nevrálgico, qual seja, a estampa. Considerando o que disse, despida das penas e retirada a maquiagem, pouco sobra além dos pífios argumentos que acredita sustentar sua ação judicial. Mas não desanime, é bastante provável que um magistrado compre sua causa, afinal, estamos no Brasil, onde a justiça é de fato cega e condena o menino por ter furtado uma bala, mas liberta o homem por ter roubado milhões.
Vamos lá, Godoizinha, minha passista celebridade (você não me deixou outra alternativa!), vejamos o que você disse:
1) “Se os animais são respeitados”: Go, em que planeta você vive, no Planeta de Vila Maria? Onde você ouviu que os animais são respeitados? Isso é o sinal mais evidente de estupidez, Go. Dissesse talvez que acreditava serem os animais respeitados, assim você sairia pela tangente. Mas afirmar, quando o óbvio está à vista? Sugiro que use seu celularzinho, vá ao Google, e procure por ‘maus-tratos aos animais’.
2) “o material tem procedência”: isso é de um prosaísmo que incomoda, Go! É óbvia a procedência. As penas que lhe deram o efêmero appeal eram a proteção, a pele de aves que foram torturadas, são o resultado de dor e sofrimento de animais indefesos! Imagine você como destaque, algo meio Wolverine, em que suas unhas tivessem que ser que ser removidas a sangue frio e trocadas por garras. Você poderia até se submeter ao martírio em proveito do espetáculo e do bem da escola, “da cultura, de povos e de tradições”, como você afirma. Mas veja, você tem o direito de escolha, as aves, os animais, NÃO!
3) “Não podemos admitir esse radicalismo.”: de qual radicalismo você fala? Até onde eu sei, a luta de Luísa Mell excede os 65 minutos. É diária, contínua! Trata-se de uma causa! Você acompanhou a polêmica relacionada à crueldade do transporte de bois vivos? Nâo? Mell estava lá, enquanto você sambava no pátio da escola! E você me vem com radicalismo?! Curioso, pergunto-me de qual cartilha retirou a palavra. É comum ressentidos, na falta de conhecimento, apelarem às cartilhas das ideologias de bolso, de lá extraírem palavras e frases e vomitarem à esmo, sem qualquer constrangimento. Na maioria das vezes, a técnica é acusar o outro daquilo que se é e se professa.
4) “Estamos falando de cultura, de povos e de tradições.”: cultura, povos, tradições? Ah, Godoizinha! Você é um sapiens! Por que se “rebaixar” e repetir feito um papagaio, parente daqueles que você ajuda a maltratar? Cultura, muitas vezes é resultado de sistemas de governo que criam, mantêm e incentivam hábitos no intuito de manipular robozinhos passistas, desviando-os dos verdadeiros problemas sociais. Quer saber um pouco da tradição do Carnaval? Leia e descubra o up que Getúlio Vargas deu para a sua causa e veja como tenho razão. Povos? Os povos se misturam, emigram, imigram, evoluem! Nada mais radical e conservador que bradar alguma causa trazendo a palavra povos como argumento. É pobre, Go! Mais, mais, Go! Mostra que você pensa! Mostra, Go! Tradição? Na Idade Média era tradição queimar bruxas, na África, ainda hoje algumas tribos tem a tradição da ablação do clitóris de jovens e etc etc. Portanto, por esse prisma a tradição é conservadora e radical, e não há nada mais desprezível que defender a crueldade apelando à tradição. É ignóbil, Godoizinha!
5) “Não podemos deixar tudo isso para trás por conta do radicalismo e da opinião de subcelebridades.”: não, Godoizinha, nós não! Talvez você não possa porque sentiu-se ofendida, afinal Luísa Mell arranhou-a na superfície desvendando, sem querer, o que você é por dentro - como popularmente nos referimos à índole de uma pessoa -, isto é, uma subcelebridade radical!
Nisso tudo, Mell ainda leva a melhor porque você a acusa de polemizar e, a meu ver, toda polêmica é salutar, afinal, estamos falando da crueldade aos animais, que você passista ajuda a perpetuar de forma egoísta e hipócrita. Dada a polêmica, talvez um dia possamos mudar isso tudo.
Grato!
Imagem: Iwi Onodera/UOL


[1] https://f5.folha.uol.com.br/celebridades/carnaval-2018/2018/02/madrinha-de-bateria-processa-luisa-mell-por-incitar-odio-em-rede-social.shtml