Revista Philomatica

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

A ignorância e a depuração do gosto

Treslendo a biografia de Machado de Assis escrita por R. Magalhães Júnior, observei as referências do autor às crônicas machadianas. As alusões, no caso, eram as cantoras de ópera que empolgavam o público carioca na segunda metade do século XIX. Um contumaz leitor do Bruxo do Cosme Velho, sem dúvida há de se lembrar da Candiani, que arrebatava almas e corpos e fizera com que os cavalos de seu carro fossem substituídos por rapazes saídos de um fã clube entusiasta. Depois, vieram a Stoltz, a Charton, a Lagrange, a Casolini, a La Grua... Todas passaram pela pena de Machado.
Portanto, não há razão para que eu não fale de nossas atuais celebridades, ainda que sob os auspícios da canção: descendo a ladeira. Ora, o assunto me veio ao espírito depois de ler a publicação de um amigo. Nela, havia uma lista dos cantores que costumávamos ouvir nas décadas oitenta e noventa e o que se costuma ouvir hoje. Come de praxe, o mais interessante nesse tipo de comparação é a opinião dos internautas, em geral, marcada por profunda obtusidade. E, nesse caso, não foi diferente. Abstive-me de qualquer comentário, haja vista tratar-se de uma página pessoal e não conhecer o autor do comentário que me leva a essa rápida reflexão.
Pois bem, em consonância à polarização e ao vitimismo atual, um jovem tascou a seguinte pérola: “Isso só mostra que a arte acima de tudo não tem a necessidade de ser bela, mas de servir como voz além de entreter. Incomoda tanto assim aos privilegiados que os marginalizados ganhem voz? As vanguardas, ainda que movimentos elitistas, não ensinaram nada para a literatura? Triste quem pensa pequeno...”.
Ora, à medida que os anos avançam o respeito à juventude é algo que não se pode ignorar. Contudo, respeitar não implica qualquer deferência à sobeja atrofia intelectual de nossos dias, em que o atraso cultural é uma doença quase que universal. Não sei se o jovem em questão, cujos neurônios padecem certo estiolamento próprio da idade, estaria disposto a me entender, mas vamos lá: primeiro, ele afirma que “a arte não tem a necessidade de ser bela”. Não tiro sua razão, mas peço que se atenha às sábias palavras de filósofos como Sri Ram, por exemplo, para quem a evolução nada mais é que a depuração do gosto. E vou mais longe, meu caro efebo:  a arte é um caminho de conhecimento à procura do Belo, do imutável, e a música que você defende está fadada às lixeiras das gravadoras, preservando-se, muito raramente, na cabeça de pessoas habituadas à leitura de cartilhas ideológicas cujo conselho é a repetição e têm como impedimento maior, a reflexão, o questionamento.
Nem toda expressão cultural pode ser chamada de arte, mancebo! A arte, já afirmava Schopenhauer, é “a exposição de ideias”, “o modo de consideração das coisas independente do princípio da razão”. Que ideias veiculam a música que você diz representar os excluídos, que voz concedem elas aos marginalizados? O relativo direito ao contorcionismo enquanto se afirma ser uma vadia todo dia? Arte é algo que toca a universalidade humana, revela-se como inspiração e dá ao homem a experiência subjetiva de reconciliar-se com a natureza e a liberdade, afirmava Kant.
A liberdade da qual fala Kant não é definitivamente o direito à lascívia pura e simplesmente. E, já que reclama o fato de as vanguardas não terem ensinado nada à literatura, aconselho-o a ler Sade. Em Justine ou Os Infortúnios da virtude, Sade não só faz uma apologia ao crime, como explora de forma exponencial a crueldade e as liberdades do corpo como do espírito e, se não me falha a memória, lá, caro mancebo, Sade dedica três ou quatro páginas às vantagens de se dar o cu. Como vê, a literatura foi além das vanguardas afeitas aos grafites, às quais provavelmente se refere.
Nota-se em sua fala total desconhecimento do que se passou há apenas uma década! Falta de leitura, suponho! Os privilegiados que condena por gostarem de Zé Ramalho, Gal Costa, Milton Nascimento, Renato Teixeira, Legião Urbana, Caetano, se não sabe, meu caro jovem, lotavam estádios nas décadas de oitenta e noventa; eram jovem sonhadores, assim como você. Eram filhos de operários e, detalhe, a grande maioria sequer pode frequentar uma universidade, pois heroicamente tinha que defender seu bocado de pão. Nem por isso se faziam de vítimas, mas lutavam, assim como os que vieram logo depois lutaram pelas “diretas já”.
Ah!, então não havia privilegiados?! Sim, havia! Muitos, inclusive, marcharam as trilhas da política e tornaram-se mais privilegiados ainda; hoje, perfazem as fileiras de nossa elite política, partidária de foros privilegiados, direitos muitos, mas quase nenhum dever!
É evidente que não são esses os privilegiados que alfineta. Em seu relativizado discurso, nota-se que lê a cartilha de forma um tanto estúpida e não se dá conta de que a mesma elite que defende, acreditando tratar-se de representantes dos marginalizados é aquela que escolhe suas músicas. E mais: Platão, na República, alertava para a qualidade da música que os governantes davam às pessoas, sem falar, é claro, em Plutarco, que já afirmava que música ruim e canções grosseiras engendram licenciosidade.
Por fim, meu jovem: não maldiga a literatura, leia Sade e ouça boa música.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Carmen e o revisionismo: matem D. José!

É senso comum certo conservadorismo no ar; melhor, certo puritanismo sexual, sobretudo se comparamos o discurso atual de uma parcela da sociedade àquele que estávamos acostumados nas duas últimas décadas. Não digo três décadas porque aí seria avançar demais e há trinta anos, creio, vivíamos ainda a Era Democrática preconizada por Vico. De qualquer modo, não há como negar que nos anos 80, apesar dos pesares, éramos muito menos ‘quadrados’ - não digo ‘careta’ porque a geração ‘Z’, que sequer tem ímpetos de consultar um dicionário, permaneceria na ignorância -, ousávamos mais e se há uma coisa que não éramos, era politicamente corretos. Ríamos, sim, éramos risíveis! E, acredite, é só olhar o modo como nos vestíamos que você, leitor, rirá às desbragadas!
Contudo, duvido que Vico tenha imaginado isto: que a moral vitoriana que marcaria a Nova Era Teocrática viria de movimentos de esquerda, entre os quais, os feministas. A religião, a fé? Ora, isso é passado; hoje somos tão descrentes e o deus que surge em nossos lábios só aparece em momentos de angústia e pedidos de socorro, algo como recorrer a um usurário, um bombeiro ou à polícia!
Certo, nessas horas a memória encarrega-se de misturar lembranças e leituras, e nessa Era do Caos em que vivemos, em que a Escola do Ressentimento teima e sapatear sobre tudo e todos, não há como não se espantar a cada novo amanhecer.
Às vezes, penso que o valor estético está mesmo com seus dias contados e, se permanecer, só será encontrado em textos eruditos, naturalmente refutados pelos Ressentidos. Não à toa, impôs-se em nossos dias a necessidade de revisar tudo, desde a história até as obras de arte, a ficção; mas, contenha-se leitor, não demora e logo pinturas medievais, renascentistas, românticas e outras serão mutiladas em proveito de um discurso que visa satisfazer a intelligentzia da rede acadêmico-jornalística. Por birra, as sinapses não me deixam de trazer ao espírito o jornaleco que se diz a serviço do Brasil!
Mas o que pretendia falar não é fruto de solo tupiniquim, vem lá das Zorópa - como dizia o matuto. Pois bem, Leo Muscato... Quem? O Leo ou o Muscato, como queira. Nunca ouviu falar dele? Ora, não seja por isso! Leo há de ser mundialmente reconhecido por seu talento visionário. Leozinho é diretor da Ópera de Florença, e diretor da Carmen, de Bizet, baseada, por sua vez, na obra de Mérimée.
Leozinho, na falta de uma direção exponencial à obra de Bizet, algo que de fato tirasse o fôlego do espectador face à sublimidade do artístico, decidiu pura e simplesmente mudar o final da obra. O porquê da mudança? Ora, na concepção do mestre Muscato, a obra dos gênios Mérimée e Bizet não condiz com os dias atuais; o público, suscetível ao politicamente correto, definitivamente não é obrigado a aplaudir um feminicídio em cena.
É claro, Bloom ressoou-me aos ouvidos! Que é isso?, pergunto. É certo que o estético é uma preocupação individual, não de sociedade, mas por que então Leozinho corrobora essa modernidade equivocada, tendenciosa, e afeita a dilapidar obras de arte para que se ajustem a uma arte supostamente subversiva?
Leozinho não pôde ignorar Carmen, contudo, mesmo considerando-a esplêndida, achou-a conservadora, por isso resolveu adaptá-la aos nossos dias, tornando-se uma espécie coautor; degenerado, claro, mas, colocou-se ali, ao lado de Mérimée e Bizet, constituindo uma tríade!
Isso é preocupante? De certo modo, sim! Preocupante pelo que pode vir a seguir, afinal, há tantas obras, tantos papéis de mulheres protagonistas, que as fazem mentir, sofrer, morrer... O que fará Leozinho e a intelligentzia? Mudará tudo? Oh, meu Deus! O que farão da fala do príncipe, em O Leopardo, de Lampedusa? – “Mudem tudo, mas apenas o suficiente para manter tudo exatamente como está.” (Leozinho não seria tão hipócrita, ou seria!?) Riscá-la-ão em proveito do politicamente correto? Quantas obras, romances, óperas não foram compreendidos em sua época e só por isso tornaram bastiões de grupos, ideias e ideologias! A crítica apoia-se na memória; o esquecimento é danoso, prejudicial à cognição, Leozinho!
Não bastasse isso, na Inglaterra, a BBC britânica decidiu recontar uma vez mais a Guerra de Tróia, a ser divulgada via Netflix. Até aí, nada de original; afinal, a epopeia já ganhou versões e versões no cinema e na TV. Contudo, o papel de Ulisses será interpretado pelo ator David Gyasi. Ora, para quem não sabe, Gyasi é negro.
Ouço o ecoar de seus pensamentos, leitor: “Racista!” Engula seu pré-julgamento leitor! O que coloco em questão, se não se deu conta ainda, é o revisionismo! Mas isso não me impede de perguntar: e se colocassem Brad Pitt a interpretar o papel de Malcolm X, Martin Luther King ou Mandela? Qual não seria a gritaria, não é mesmo? Por que revisar a obra de Homero, na qual a personagem é notadamente descrita por sua cabeleira loura? O contrário, é certo, seria tratado em nossos dias como apropriação cultural, expressão tão vazia de sentido cujo propósito não é outro que deferir discursos superficiais dos caçadores de likes nas redes sociais.
Mas, por que toda essa prosa, perguntas-me, ó digníssimo leitor. Eu mesmo não sei, afinal, os filmes são rapidamente esquecidos e ainda que Brad Pitt venha a interpretar Mandela e Gyasi seja reconhecidamente um Ulisses premiado, logo cairão no anonimato, face a onda avassaladora de informação. Mas e os livros? Ah, os livros, nem Leozinho e nem a BBC poderão alterá-los! Ademais, poucos, bem poucos os leem, sobretudo os clássicos, e se tentarem queimá-los, como em 451 Fahrenheit, arderão intactos e ninguém levantará a voz. Portanto, caminhemos e esqueçamos as polêmicas!

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Assassinato no Expresso do Oriente

O hábito não faz o monge, diz o ditado. Caso o fizesse, ao escrever essas garatujas, mais uma vez eu estaria a criticar a canalhice com que se faz a grande imprensa. Porém, olhei para o lado e não tive como ignorar a tristeza da vida que se acaba entre a juventude, marcada pelo episódio de ontem, em que a jovem fez da janela um cadafalso.
Refleti sobre a desesperança e lembrei-me de grandes poetas cuja saída não foi diferente. Veio-me ao espírito Maiakovski, sobretudo porque esta manhã vi a foto do poeta com seu cachorro Pouchkino nos braços, e também porque, ao meu lado, enquanto escrevo, obrigo-me a um movimento pendular das mãos que ora recaem sobre o teclado, ora deslizam sobre o dorso da Colette, companheira que, carinhosamente, tem procurado curar-me da tristeza que ainda me assalta ao lembrar-me do Pierre. Mas, deixemos o quotidiano de lado. Adentremos a ficção. Nesses tempos de férias, releio, por prazer, uma obra da infância. À medida em que avanço pelos capítulos, os dias de menino refrescam-me a alma. Traço paralelos, faço comparações, resgato impressões, relembro o que imaginava, constato o caminho percorrido, repenso os desvios, o tempo que ora considerava perdido, mas, hoje, resignado, julgo ter sido um ganho.
Trata-se, leitor, de O Assassinato no Expresso do Oriente, de Agatha Christie. Na França, antes de ser publicado na Coleção Le Masque, em 1934, o romance foi publicado em folhetim nas páginas do jornal Excelsior. À época, é claro, Christie ainda não tinha a alcunha de a Rainha do Crime, mas já havia escrito dezessete romances, dentre os quais, oito já traziam Hercule Poirot, seu detetive favorito, e que desfruta até nossos dias de numerosos fãs.
No ano anterior, o Le Petit Journal já havia publicado em folhetim A Morte de Roger Ackroyd. Dessa vez, porém, tratava-se de um texto inédito e o Excelsior anunciava sua publicação para o período de 3 de junho a 14 de julho: “Amanhã: O Assassinato no Expresso do Oriente, grande romance policial de aventuras de Mme Agatha Christie, que é considerada a melhor romancista inglesa de aventuras policiais.”
A tradução em francês ficou aos cuidados de Louis Postif; curiosamente, a mesma que me caiu nas mãos. Ao comentar antes das férias que deixaria de lado as obras teóricas e leria Christie, uma colega de trabalho retrucou com certo desdém: “Prefiro Shakespeare.” Como não gostar de Shakespeare, pensei, sobretudo depois de ler Bloom, que ela também não gosta? Mas, não nego, gosto de um bom folhetim!
Assim, como não gostar de Christie? Ora, o primeiro parágrafo é como a cortina do espetáculo que se desvela à vista do espectador. De resto, é subir no trem e começar a viagem, pois tudo começa assim: “Eram às cinco horas de uma manhã de inverno na Síria. Ao longo da plataforma de Aleppo, estacionava o comboio pomposamente anunciado nos guias turísticos como Taurus Express. [...] À subida para a vagão-dormitório, um jovem tenente francês, elegantemente fardado, conversava com um homenzinho, agasalhado até as orelhas, o que lhe deixava ver só o nariz vermelho e as pontas do bigode curvo, voltado para cima.”
O Assassinato no Expresso Oriente é um desses romances perfeitos cujo grande mote é o enigma - o tal do whodunit - tão caro aos ingleses: um crime em que todas as personagens são suspeitas e as pistas são destiladas ao leitor, uma a uma, aos poucos, até o grande desenlace, por Hercule Poirot, o homenzinho de bigode curvo.
O romance tem em sua estrutura um dado singular, já que se baseia em fatos reais. O argumento em torno da vítima, o americano Ratchett, foi em grande parte inspirado em um caso objeto de muita discussão havia apenas dois anos: o sequestro e o assassinato do filho do aviador americano Charles Lindbergh.
Quanto à imobilização do trem, pano de fundo e ingrediente essencial para o quadro, vem de um incidente ocorrido alguns anos antes na Turquia, no qual os passageiros do Simplon Orient Express ficaram isolados do mundo por seis dias.
No mais, a narrativa é convidativa sobretudo ao leitor semântico, habituado a algumas obviedades, porém, nada que desmereça as boas horas de viagem no Expresso. Por fim, vale destacar que o romance continua bem vivo e acaba de ganhar nova versão nas telas do cinema, com a obra de Kenneth Branagh.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Retrospectiva

Uma olhadela nas notícias de hoje e constato o óbvio: um balanço geral do ano que agoniza. Após correr os olhos de alto a baixo nas principais publicações, noto que somos, digamos, efusivos. Explico-me: preferimos assuntos leves, palatáveis.
Embora não devamos generalizar, o fato é que ao traçar um panorama do que se publica na grande imprensa, afora as notícias ditas impositivas, isto é, os dramas do povo e as tragédias da política, o que temos é pura imbecilidade. Não à toa, Eco, o meu padre santo, dizia que a internet deu voz a uma legião de imbecis. Não bastasse isso, a imprensa encarrega-se de alienar a massa em proveito de seus próprios interesses.
Parece haver uma teoria conspiratória em favor do entorpecimento geral, sim, algo como aquelas histórias da Nova Ordem Mundial, temida por muitos, risível a tantos outros. Contudo, depois de milhares de internautas se confessarem intrigados com a foto de uma celebridade em pose lânguida e outros se digladiarem sobre o talento inexistente do cantorzinho que a imprensa considera a diva pop da atualidade, nada nos resta além de um sentimento funéreo, igual ao do ano que agoniza.
Firulas, circunlóquios, rodeios? Não, caro leitor, é tudo muito sério. Isso é reflexo de uma relativização intelectual e, como consequência, rebaixe do espírito crítico, no qual até mesmo a apreensão do conhecimento é circunscrita. Recentemente, grandes empresas abriram vagas de estágio; exigentes e ditas de renome, a seleção foi concorrida. Milhares de universitários inscreveram-se, uma média de 275 candidatos por vaga.
Previu-se que seria fácil preencher as vagas tal o número de postulantes, contudo, constatou-se que as empresas sequer conseguiram candidatos para a metade das vagas e foram obrigadas a diminuir o nível de exigência. Além do óbvio, qual seja, as questões educacionais (Ideb), os especialistas apontaram uma outra razão para a suposta obtusidade dos proponentes: o excesso de internet. Como se sabe, a internet facilitou o acesso à informação, porém, trocando em miúdos, deu azo ao grande plágio, a apropriação da reflexão alheia. Papagueiam à exaustão a apropriação cultural, mas, ao fazê-lo, reproduzem a dinâmica e o movimento daqueles que se assenhoram das ideias de outros.
Isso só acontece porque vivemos uma época em que os alunos, ao escreverem seus textos, não mais lançam mão da pena e da criatividade, mas dos modernos ‘control c, control v’. A cultura visual se impõe e ler, fichar livros e fazer resumos ganham ares de erudição, quando deveriam fazer parte do quotidiano dos alunos. Hipertextos obrigam internautas a pular de um lugar a outro em detrimento da profundidade. Com isso, perde-se não só o conteúdo, mas também chicoteia-se a língua: hoje as empresas já não trazem como requisito um bom desempenho em prova de língua portuguesa, basta que o candidato não escreva, por exemplo, texto com dois ésses ‘s’.
Mas isso é o de menos, como diz-se na linguagem coloquial, o grave mesmo é a incapacidade de desenvolver e expor ideias, resultado de uma interatividade hiperativa, conforme afirma Mark Bauerlein, autor de “A mais burra das gerações: como a era digital está emburrecendo os jovens americanos e ameaçando nosso futuro”. Burrice, para Bauerlein, é ouvir dos adolescentes americanos que a Alemanha foi aliada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. 
Não nos assustemos, pois já ouvi aqui nos trópicos que a Argentina fica na Austrália. Esses absurdos, muitos creditam ao fato de hoje os jovens passarem muitos mais tempo trocando informações entre si, de modo a excluir a intermediação dos adultos do processo de aprendizagem.
Não que os jovens sejam tabula rasa e os adultos receptáculos de conhecimento e sabedoria. Longe disso; até mesmo porque Bauerlein vê com desconfiança os meios educacionais tradicionais, como a escola, porque suspeita ser ela incapaz de traduzir o que é relevante para a vida.
Face à profusão de informação, o jovem enfrenta dificuldade em selecionar aquilo que é relevante para o seu conhecimento e, diante disso, vê-se cada vez mais confuso e busca intermediação nas redes sociais à procura de alguém em quem possa confiar. O resultado? O perigo de achar que a boa música, por exemplo, é fruto de suposta representatividade e/ou atributos físicos, tal um bom derrière.
À escola do futuro fica o desafio de tentar interagir com o jovem; à imprensa, o dever de não torná-lo obtuso, enfiando-lhe goela abaixo, sob o rótulo de cultura, muito do lixo que a sociedade produz 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Aproveitem enquanto ainda há presépios!

O primeiro presépio, reza a lenda, teria sido montado por São Francisco de Assis no ano de 1233 e, acreditem, foi feito em argila. Nada dessas invencionices modernosas em que o Cristo ganha feições de garrafa pet reciclável e os Reis Magos, customizados, são confeccionados com arames, e, como afirmam alguns jornalistas leitores de notícias, tornam-se “pura obra de arte”.
Segundo dizem, como muitos camponeses não entendiam bem a história do nascimento de Jesus, São Francisco resolveu representá-la para melhor explicar o episódio. A moda pegou e igrejas e mosteiros passaram a reproduzir o feito. Não demorou muito, reis e nobres replicaram o ato em seus palácios e casas. Tornou-se tradição a manjedoura, o menino, os reis, o boi, o burro etc e tal. A encenação, afirma-se, tem por objetivo o congraçamento e o despertar da fraternidade, às voltas, é claro, de um núcleo familiar que garante seu protagonismo.
Mas os tempos mudaram e com eles o presépio, que hoje saiu das casas e adentrou os shoppings. Em nossos dias, o congraçar-se dá-se em torno do vil metal: o burro pisca daqui, o boi pisca dali, os reis apontam as vitrines, o menino esperneia pedindo esse ou aquele brinquedo; a vendedora, desesperada por uma percentagem maior no salário, mostra um jogo, um carrinho, mas o menino chora, esperneia, faz birra e quer porque quer a boneca. A mãe, receosa em magoá-lo, obedece à risca as suas vontades. Ao saírem, o menino exulta: ganhou não só a boneca, mas uma caixinha de maquiagem e até uma sainha, que é um mimo, de tão fofa!
Na porta dos shoppings, repórteres ávidos à procura de compradores que sustentem o argumento de que a economia vai bem obrigado, perguntam se o Natal vai ser bom: o filho olha para a mãe, que olha para o filho, e devolve a pergunta: “Natal, que Natal?” O Natal, o nascimento do menino Jesus, retruca o repórter meio sem jeito. “Ah, não sei quem é ele não, moça. O que sei é que esse ano o décimo terceiro saiu na data. Ano passado, nem teve!”
Mas isso, caro leitor, são historietas aqui dos rincões. Em outros países, no entanto, guardadas as devidas proporções, não é lá muito diferente: o fato é que o tradicional presépio também lá comemora suas exéquias. Na França, por exemplo, país em estágio avançado de islamização, presépios são um acinte não só à tão propalada laicização, mas às susceptibilidades muçulmanas. As escolas já não comemoram mais o Natal, presépios tornaram-se blasfematórios, os pinheiros de Natal sequer aparecem e o bom velhinho já não cruza mais os céus conduzindo suas renas, mas caminha cabisbaixo, costas curvadas, pensativo, rumo a um asilo qualquer. E tudo em nome de uma convivência dita harmoniosa em que as diferenças são relativizadas. O Estado interfere com a sua mão forte dizendo lutar pelas minorias, os oprimidos, mas, ao fazê-lo, oprime outros, criando subgrupos, enquanto deveria pregar a coexistência dos contrários, na qual todos pudessem se expressar segundo suas ideias e crenças.
Lá também, em comemorações de fim de ano, até as estrelas têm sido banidas, afinal, remetem aos Evangelhos, anunciando o nascimento do menino. Que menino? Já não se pode mais pronunciar seu nome, pois é politicamente incorreto. A festa, antes coletiva e familiar, na qual princípios de caridade e fraternidade eram postos em prática, ainda que sob certa efemeridade, hoje tornou-se simplesmente mercantilista.
De fato, poucos lembram-se de sua origem e da razão de sua existência, o que importa é a troca de presentes, o quanto se vende, o quanto se lucra. Abraços, sorrisos; tudo isso tornou-se démodé em tempos cujas bandeiras são ideológicas, racionais, pragmáticas e seguem à risca a cartilha imposta por grupelhos, que se arvoram donos da verdade e são comumente sustentados por uma mídia suja e interesseira.
Enfim, leitor, é isso: o presépio, também nas igrejas, está com seus dias contados. Mas, tranquilize-se: como somos todos um pouco metafísicos, a intelligentzia ideológico-partidária há de providenciar outros deuses, cujos evangelhos serão redigidos em longas reuniões partidárias, ao sabor do café e do croissant subvencionados pela massa ingênua, alienada e faminta, marcada para morrer e mansa feito o cordeiro de Deus.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Educação, dias melhores em 2018

A roda viva gira muito rápido, por isso arrisco-me a incorrer em erro; mas é muito provável que grande parte dos leitores ainda se lembre da canção dos Titãs, entoada às desbragadas por uma juventude supostamente faminta de diversão, arte e fazer amor. Pois bem, a trancos e barrancos conseguimos comer, mal, mas comemos; nem todos, é claro, mas uma maioria - comme toujours!
Contudo, tratando-se da dita diversão, tudo é relativo! Para alguns, o funk não só diverte, como é pura arte! Outros, no entanto, ao som de acordes do gênero, só não enfiam a cabeça no buraco feito avestruz porque a retaguarda fica desprotegida, e é nisso que o funk mira e é disso que os funkeiros gostam. Isto posto, a juventude não só come, mas faz amor!
Ela, a juventude, crê-se informada! Não à toa, as redes sociais estão plenas de especialistas. Descreio de muita coisa e, na dúvida, volto-me aos meus botões. Como sabem, sempre há um que me socorre nessas horas. Desta vez não foi diferente: disse-me para não generalizar, pois o diabo não só mora nos detalhes, mas sobretudo nas exceções; alertou-me também para que ficasse atento, pois a maioria confunde informação com conhecimento.
Talvez, por isso, na republiqueta Temer o ensino está cada vez mais sucateado, afinal, para os liberais de plantão, qualidade é água (suja), conhecimento é pasto (seco)! E você, tem sede de quê? Tem fome de quê? O pessoal da canaille, leitor, pouco se importa se você tem fome ou sede, desconhece seus desejos; a imprensa, não faz diferente e lança hora ou outra as ditas reportagens denunciadoras que só corroboram o projeto político de sucatear o ensino público; os oportunistas, ah!, esses nadam de braçadas como se a educação pudesse ser descartada como produto fora de linha, substituindo-a por qualquer outro, em proveito do lucro e sem qualquer desperdício para o conhecimento como afirmam.
Vejam, por exemplo, o caso de um anúncio de vagas para professor veiculado nas redes sociais: um colégio particular oferece vaga para professor infantil e fundamental I a uma remuneração de R$ 1.450,00 mensais (período integral). Como não se revoltar, se é sabido que um aluno paga uma mensalidade que ultrapassa em muito o valor oferecido ao professor por um mês de trabalho?
O curioso é que há entre o professorado aqueles que, por razões que desconheço, tentam justificar um salário tão irrisório e, para isso, trazem como justificativa os salários acachapantes e vergonhosos pagos aos professores públicos. Há bem pouco tempo, as universidades eram repositórios de respeito ao professor e de um salário, digamos, justo. Como disse, há bem pouco tempo, porque a roda gira. A USP, renomada universidade e uma das melhores do país, trata de fazer a sua parte para o recrudescimento desse quadro já vergonhoso.
Hoje, segundo notícia do Estadão[1], o número de professores temporários na USP triplicou desde 2014. Há pouco, o Departamento de Ciências Sociais lançava edital em busca de professor substituto: 12 horas de trabalho semanais a um salário de mil e poucos reais. O detalhe é que esse substituto deve fazer aquilo que o professor efetivo faz, às vezes mais, e para que chegue a fazer esse mais, é preciso titulação – no mínimo, doutorado, e um Lattes recheado de publicações etc e tal.
As notícias da semana só reforçam esse plano de reduzir o ensino público a nada: a USP, a UNICAMP preveem déficit, a UNESP pede verba. A culpa? A tal da crise; uma mão na roda na hora de se criar uma desculpa, aliás, crise que jamais atinge a canaille, cujos salários são majorados rotineiramente. A Estácio demitiu 1200 professores de uma tacada só; a Universidade Metodista mais uns 50. E assim caminha o ensino...
Mas não há motivo para pessimismo! Tudo vai mudar com o novo ano que se aproxima: 2018 é ano eleitoral e a educação, como num passe de mágica, torna-se a principal pauta dos políticos, corruptos ou não. Nós, brasileiros, como somos afeitos a promessas, acreditamos em Papai Noel, duendes, Salvadores da pátria e otras cositas. Por isso, votamos e acreditamos em dias melhores.



[1] http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,numero-de-professores-temporarios-na-usp-mais-que-triplica-desde-2014,70002099343

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Viagem ou espetáculo

A ela são atribuídas diferentes metáforas; todas, quando pensadas, revelam-se meio positivas, meio autoajuda. Aos percalços cruéis e deceptivos ao longo do caminho, creditam sempre o lado benfazejo e construtivo da experiência. Isso não nego, mas duvido. Duvido sempre, a ponto de cair na mesmice, reproduzir clichês, fazer comparações, revoltar-me contra os céus tal aquela personagem que, tomada por ódio e desespero, perguntou ao Altíssimo por que ele dispensa sorrisos e bênçãos ao vis enquanto golpeia e lança ódio e miséria aos que buscam alguma retidão.
Procuro, mas não encontro respostas. As metáforas, caro leitor, oscilam entre o grande espetáculo que é a vida, no qual interpretamos diferentes papéis, diferentes cenas, e o trem. Muitos sugerem atos cômicos e leves, contudo, penso que o trágico se impõe, até mesmo porque já nos habituamos ao drama, digerindo-o quotidianamente, e, como nos acostumamos a tudo, vemos nele algo risível, e divertimo-nos com nossa própria miséria.
O trem. Eis aí uma metáfora insistentemente (não gosto dessas palavras longas, mas, às vezes, face ao tédio, fazem-se necessárias) atribuída à vida que escorre por entre os vãos dos dedos. Em uma estação qualquer nos aventuramos na viagem; subimos no trem e ali sentamo-nos com certa timidez. Habituamo-nos ao vagão, trocamos palavras com os passageiros ao lado, rimos, choramos ao ouvir alguma historieta. Cansamo-nos um pouco e decidimos caminhar entre os vagões, deparamo-nos com rostos diferentes. Encantamo-nos com os novos passageiros, as novas histórias, revoltamo-nos com outras por não compreendê-las, mas, dizem-nos, Ele assim o quis, nada podemos fazer. Cabe a nós algum conformismo. A revolta, dizem, não nos leva a lugar algum. Um ou outro mais introspectivo sente nisso tudo um cheiro de Leibniz, ridiculariza-o com Voltaire, muda de vagão. Outros, olham para Brasília - se o trem, evidentemente, move-se em território tupiniquim -, e não veem saída outra que descer na próxima estação, mas hesitam e se conformam. Não se revoltam (e eles são muitos)!
Para alguns, contudo, o trem move-se muito devagar a ponto de sentirem-se fatigados; desejam parar em uma estação qualquer, mas o fluxo daqueles que subiram impedem a passagem; cansam-se ainda mais, acreditam não haver nada mais que possam aprender, que os estimulem, mas os que acabaram de subir renovam o ar, trazem músicas novas. Impassíveis, subjugados e impotentes, muitos refutam os novos ritmos, atiram-se pelas janelas. Os novos passageiros, estes, os ignoram e sequer notam as janelas; para eles a viagem será eterna. Outros, porém, já na trigésima estação, lançam olhadelas à procura de alguma luz - e o sacolejar do trem continua.
Alguns ainda, revelam-se sofistas. Ao trem ou ao roteiro do espetáculo, nada creditam, pois não passam de elementos, de móbiles, dizem. De fato, é o homem seu próprio algoz, sua própria doença, sua própria miséria, seu fardo, sua própria morte - porque também se morre em vida. Volto-me a esses sofistas todas as vezes em que afirmam sermos nós nossas próprias expressões, a razão de sermos oprimidos, desprezados, rejeitados, de apodrecermos em vida; ouço tudo e pergunto por que a felicidade não poderia ser em vida, como o sol? Não obtenho respostas. No mais, entrevejo um olhares responsivos dos quais depreendo uma centelha de luz dizendo-me que em algo amorfo como a sociedade os homens sofrem pelos homens, os homens torturam os homens.

Perco-me em meus pensamentos. Por que Ele teria criado os poderosos, os opressores?

sábado, 9 de dezembro de 2017

Hipocrisia quotidiana

“Amo Platão, mas amo muito mais a verdade.” A fala é de uma personagem e são duas as razões pelas quais dela me aproprio: primeiro, porque não acredito em absolutos, seja no sentido aristotélico, seja no sentido pragmático, que traduz tudo aquilo que não se deixa falsear; depois, porque a hipocrisia ronda o quotidiano, está sempre à espreita e nos fustiga, também diariamente.

A ética, dizem, é fazer o correto quando não se tem uma câmera a registrar suas ações. Ora, evoluímos muito e sequer trazemos à definição a intenção, o caráter. Desse modo, o caráter é relativo, tudo depende do grau de exposição. O complicador maior, creio, é que em nossos dias, mesmo sob os holofotes a hipocrisia e a falta de ética ganham foro privilegiado e de verdade.

Tomemos alguns exemplos aos quais já nos habituamos: o presidente da república indica o novo diretor da polícia federal (isso mesmo, tudo em minúsculas!); pois bem, na tal da nomeação do novo ‘servidor’ (e o nome vem bem a calhar), o recém nomeado orbita em torno do presidente e seus asseclas, todos investigados por corrupção. Em seu discurso, o mais novo servidor presidencial, digo, da polícia federal, diz pretender combater a corrupção com unhas e dentes.

A plateia, composta por outros servidores ilibados e pela imprensa, participa do ritual como se estivesse diante de um absoluto pragmático, o que não deixa de ser irônico. Discurso feito, essa mesma imprensa, tão absoluta quanto o novo diretor, passa a entrevistá-lo; e é nesse exato momento que o servidor corrompe sua imparcialidade irônica, afirmando que uma malinha ou outra de dinheiro não quer dizer absolutamente nada! No mais, um cidadão qualquer que tenha lá no fundo da alma um resquício de bom-caratismo, sentir-se-á ultrajado face a exponencial hipocrisia.

A hipocrisia é uma senhora idosa. E está aí uma ex-presidente que não me deixa mentir, também ela partidária do absoluto e da ética, razão de seus discursos memoráveis. O fato é que a hipocrisia não só divide o prato que comemos, como, às vezes, faz uso do nosso próprio garfo, tornando hipócritas a nós mesmos. Nas relações de trabalho isso é matéria comum. A amizade muito comumente tem seus dois lados, o particular e o público. Nessa lógica, vale o velho adágio de confiar desconfiando.

A hipocrisia, como visto no início dessa nossa prosa, não só está presente nas altas esferas públicas, moldando sua estrutura, mas serve de arcabouço para a sustentação dos pequenos poderes. Nas universidades, por exemplo, comumente se confunde o público e o particular. Funcionários reinando há algum tempo em determinado território, apropriam-se do público em proveito de seus próprios interesses e dos interesses de seus amigos e protegidos. A vida acadêmica, relativizada, resume-se a ‘panelas’, estas, digamos, nem sempre pautadas pelo intelectual, se é que me entendem.

Os concursos públicos são o exemplo mais claro e evidente de como as estruturas espúrias se articulam. Tudo é feito e arquitetado dentro de uma clara e evidente transparência, contudo, nas arrrières boutiques, como dizia Montaigne, os resultados são publicados em ‘secreto’ antes mesmo de os editais virem à luz. Funcionários e servidores agem hipocritamente, atuam, às vezes, porcamente, e acreditam que as demais almas sequer desconfiam dos ardis que se tramam à vista de todos.

Diante disso tudo o que fazer? Não sei, caro leitor. Definitivamente, não sei. Mas há sempre duas saídas: nos acostumarmos, e assim nos tornamos a cada dia um pouco mais hipócritas, ou fazermos como Rousseau, retirarmo-nos para as montanhas, tal um promeneur solitaire. Mas, como dizem os mais aquiescentes, o conhecimento só vem com lágrimas, agonia e dor, sempre temperadas com alguma pitada de decepção.



quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Sapiens ignaros

“Há um momento em que a gente simplesmente se cansa disso tudo.” A frase, ouvia-a de minha avô pouco antes de partir há quase duas décadas, e, depois de uma semana difícil e de perdas, não há como não entabular uma reflexão, visitar os subterrâneos da alma, emergir, olhar ao redor e pesar os sobressaltos, as alegrias e as tristezas e, por que não, a ignorância que nos assola. Vale a pena tudo isso?
“A ignorância traz uma felicidade extremada.” Hoje estou para lembranças, embora não me recorde do autor desta uma pérola, que continuo preservando sempre que me deparo com disparates publicados na imprensa e afins, alterados, evidentemente, ao sabor dos interesses dos grandes, dos corruptos e seus asseclas.
Fala-se muito em ideologia, na tentativa de atribuir certa erudição à verborragia e à inépcia, contudo, a intelligentsia que povoa as redações, parece-me, não lê. Se o faz é via blogs, facebook e otras mierdas más, reproduzindo falas de pseudolíderes ágeis em preparar uma ratatouille, colhendo ideias aqui e acolá e misturando-as ao sabor dos próprios interesses, esquecendo de que toda ideologia é falsa consciência, mentira, portanto, instrumento de alienação, venha de que lado vier.  
Não à toa, ouvi ontem um desses pseudolíderes descomendo ideias pela boca depois de tê-las digerido em ácido estomacal fétido e interesseiro; a tal dizia ‘sincerona’ que “utopia concreta são as possibilidades reais que estão latentes na realidade”. O nonsense é extremado!
Não bastasse isso, o homo sapiens (e nada aqui me faz esquecer discurso recente em que a canaille creditou a evolução do homem à bola. Esta, teria nos transformado em homens e mulheres sapiens). Feliz por não mais pertencer à espécie dos neandertais ou australopitecos, fecho as cortinas da memória e passo a refletir sobre um vídeo realizado em Portugal, por um jornalista.
Nele, o jornalista indagava pessoas nas ruas sobre o que achavam de casamentos entre homo sapiens, em clara analogia ao casamento homossexual. Opositores e partidários da legalização do tal casamento, responderam às questões ingenuamente, demonstrando um arrazoado desprovido de qualquer informação, contrário não só ao bom senso, mas propenso à ignorância, bastião de toda intolerância. 
Geograficamente, volto-me ao sul sem, contudo, sugerir qualquer ascendência da ex-metrópole sobre o caráter ignaro dos tupiniquins, mas tocado pela hipocrisia e ao mau-caratismo da septuagenária dos direitos humanos, a Sra. Luislinda Valois, que incarna a fraude em pessoa: não é Luís, não é linda e nada vale, pois, até agora, a única ação de destaque em seu ministério foi pleitear acúmulo de pensão e salário totalizando míseros R$ 61.000,00. Valois desconhece o preço e a qualidade dos brioches comidos pelo povo; julga-se escravizada por perceber tão mísero salário – a metade do que pleiteia.
Afora isso, somos tão hipócritas que a verdade, quando dita, nos fere a alma. A mentira, esta nos enleva, rende letras de música, samba nos pés e algum valor. Não por outra razão, no Rio de Janeiro, território do tráfico, o senhor Pezão e autoridades policiais sentiram-se extremamente ofendidos ao ouvir o óbvio do ministro da justiça. Porém, obtusos somos todos, afinal vendemos o carnaval como uma grande festa popular da arrière-boutique, como diria Montaigne. E, só para provocar, uma perguntinha tola: naquela terra de ninguém, e em muitos outros rincões do Brasil, quem financia políticos, que indica comandantes da polícia e dirigentes em muitos outros cargos, quem banca a festa? Os antigos diziam que quem paga a música escolhe a dança. Parece-me óbvio!
Por fim, fico com Eco, meu padre-santo, por ter um dia afirmado que o homem é de fato uma criatura literalmente extraordinária: descobriu o fogo, criou cidades, escreveu poemas, mas não cessou de guerrear seus semelhantes, enganá-los e destruir o meio ambiente. Assino embaixo quando diz que o equilíbrio entre a alta virtude intelectual e a baixa idiotice dá um resultado neutro. E diria mais: nessa toada em que estamos, hora ou outra mudamos o astral e nos tornamos bem mais opitecos.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Caetaneando o que há de bom - no 13

Caro leitor, leãozinho... estou certo de que assim como dois e dois são cinco, um dia ou outro nessa sua vida poética, você talvez tenha tido alguns quereres e sentiu lá no fundo da alma uma força estranha, uns desejos de ir para tão longe, que o fizeram vislumbrar Londres. Mas esse seu coração vagabundo com mania de antecipar as coisas já começara a bater em inglês sem que você mesmo se desse conta, e a old smoke surgiu assim, repetida: London London.
Não bastasse esses devaneios, ao ver a luz do sol você descobriu seu dom de iludir, sussurrou a si mesmo um estou triste, aprofundou a queixa, pois já não sabia mais se a ilusão era sua ou dos outros. Em meio a tanto bafafá, sozinho, saiu caetaneando o que há de bom. Pois é isso, leitor, são tantas as canções que, malgrado a hashtag nos trending topics, você não quis se dar ao trabalho de criar mais uma, afinal depois do mexeu com uma, mexeu com todas o melhor mesmo é sair cantarolando odara, feliz e despreocupado.
Abro um parêntese e volto no tempo em busca de alguma prudência: lá pelos idos de 1862, Machado de Assis, perspicaz, buscou conselho junto a sua pena que o aconselhou: “Não te envolvas em polêmicas de nenhum gênero, nem políticas, nem literárias, nem quaisquer outras, de outro modo verás que passas de honrada a desonesta, de modesta a pretensiosa, e em um abrir e fechar de olhos perdes o que tinhas e o que eu te fiz ganhar.”
Fecho o parênteses, reflito, e chego à conclusão de que os tempos são outros. Polêmicas hoje duram vinte e quatro horas, quando muito uma semana, sempre em consonância aos interesses da imprensa. Nós, indiferentes à mnemônica, apoiamo-nos na mídia, e, ocupados com a vida quotidiana, ignoramos os interesses e deixamo-nos levar. Manipulados como bonecos, esquecemos tudo no dia seguinte.
Portanto, contribuo com o bafafá não só porque sou anterior às hashtags, mas também porque tenho a malfadada mania de me lembrar de coisas, correspondências, similitudes...  E não é que vi Roman Polanski dando uma piscadela irônica a Caetano Veloso, num assim dizer “conheço bem essa história, meu caro”!? A despeito da genialidade artística, num cassino qualquer, ambos foram para a roleta e apostaram na mesma casa, o 13!
Roman Polanski, cineasta francês (memorável O Baile dos Vampiros, com a deslumbrante e trágica Sharon Tate!), em 1977 foi acusado de manter relações sexuais com uma garota de 13 anos. Polanski cumpriu quarenta e cinco dias de prisão e depois de saber que o juiz encarregado do caso pretendia condená-lo a uma pena de cinquenta anos, fugiu dos Estados Unidos e se instalou na França. Em 2009, é novamente preso nas Suíça, os Estados Unidos solicitam a extradição; dois meses depois é colocado em prisão domiciliar em Gstaad. Em 2010, a Suíça decide pela não extradição; em 2015, a Polônia, país no qual também tem cidadania, recusa a extradição; a vítima o perdoa publicamente e pede que interrompam o processo contra ele. Mas ele é o que chamam pedófilo, portanto os americanos estão como cão a ranger os dentes, prontos a atacá-lo. E olha que já se foram 38 anos!
No Brasil, como há gente que tem o hábito de folhear revistas velhas, acharam uma Playboy, de 1998, em que Paula Lavigne, mulher de Caetano revela que foi deflorada pelo tropicalista, aos 13 anos! Em outra, a Maire Claire, esta de 2016, a Senhora Veloso afirma que à época, quando foi desvirginada, era apenas uma menina. Um movimento inominável da direita resolveu exumar a notícia e meter lá uma cerquilha antes do nome do cantor, seguido da palavra pedófilo. Estava montada o que alguns chamam de guerra cultural.
O que vejo ao comparar os dois episódios, semelhantes na raiz, é um dos traços constitutivos da nossa cultura: o hábito que temos de amenizar, relativizar, não dar importância a crimes de qualquer natureza se o protagonista é alguém de nossa empatia. Quando isso ocorre, inventamos histórias, higienizamos a biografia, criamos mil explicações, torcemos a lei, fingimos cegueira, fazemos ouvidos mouco, não sabemos de nada, não estamos nem aí!
A Folha de São Paulo, por exemplo, chegou a legislar a questão absolvendo o cantor, mostrando-se totalmente incoerente se comparado o fato ao episódio José Mayer, cujas reportagens sucessivas diziam mais do mesmo.
Tony Goes, colunista especializado em celebridades, no site UOL, do mesmo grupo, ao demonstrar habilidades de pesquisa, informa seu leitor de que a lei vigente de 1982 (Código Penal ainda de 1940) absolve o cantor, e ao enumerar os lances posteriores de seu romance, conclui o parágrafo sentencioso: “Chamar pedofilia o que aconteceu há 35 anos é ignorar todo esse contexto.”
Ora, eu, de minha parte, não estou a pedir a condenação de Caetano. Se a vítima de Polanski o perdoou, Caetano, por sua vez, fez da ninfeta sua mulher e a mãe de seus filhos. Por que eu o julgaria? O que questiono são as tentativas de apagamento do passado empreendidas pela imprensa e o uso de pesos e medidas díspares no trato de casos similares.
Goes, esquecendo ser colunista, aventou-se juiz e fundamentou a sentença: “Além do mais, o estupro só foi redefinido por lei em 2009, e a lei não retroage. Dado o histórico do casal, é duvidoso que algum juiz considere Caetano Veloso culpado (inclusive porque o suposto crime já prescreveu).”
Dada a sentença, Goes questiona o fato de celebridades e artistas serem atacados nas redes sociais por militarem na extrema esquerda ou por enriquecerem via lei Rouanet. O colunista não aprofunda a questão, o que poderia lhe render um bom contra-argumento, mas perde-se e, redundante, explica a lei de incentivo à cultura. Ao fazê-lo, exemplifica trazendo Danilo Gentili, crítico da lei e que dela recebeu benefícios
Por fim, antes de vislumbrar uma teoria da conspiração nesses tempos, confesso, sombrios em que vivemos, cai numa esparrela argumentativa: afirma que desconfia serem os artistas tão execrados pura e simplesmente por “inveja”, pois alguns deles “são ricos e desfrutam de uma série de vantagens”.
Concordo com Goes quando afirma haver um esforço para criminalizar a expressão artística e promover a censura, mas veja, leitor, ao querer fazer-se ator, celebridade, e interpretar o juiz, esqueceu-se de que era colunista, de modo que ficou o dito pelo não dito. Na tentativa de apagar o óbvio, não disse coisa alguma. A mim, não me restou nada além daquela pequena prosa com meus botões. Também a opinião deles é divergente, mas lá há um que considero o mais sensato e que sempre me adverte. Desta vez, não foi diferente: olhou-me em direção ao queixo que trazia reclinado e disse-me: “estão confusos, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”.

Publicado originalmente em http://z1portal.com.br/category/miscellanea/

sábado, 28 de outubro de 2017

Juventude sem escola

Quem já leu Machado de Assis e especulou suas opiniões sobre a crônica, conhece de cor e salteado o bordão de que o gênero é a reunião do útil e do fútil. Ora, Machado afirmava ter o folhetim (a crônica) nascido do jornal, donde a união agradável dos adjetivos supracitados. Lesse em nossos dias, o Bruxo do Cosme Velho certamente se depararia com a degenerescência da agradável futilidade.

Hoje, por exemplo, dou de olhos com as notícias mais lidas no site da autointitulada maior empresa de notícias do país: “Exausta e sem ‘perereca’: Luciana Gimenez explica 5 fotos do Instagram”, “Flávia Alessandra sobre sexo na piscina: ‘Uma delícia!’”, “Cláudia Raia lembra primeira vez com o namorado da irmã”, “Herdeiros do Maksoud Plaza brigam por causa de comida e roupa lavada’. Agora, diga-me você leitor: o fútil, o que é? Está bem, entendi! Não é preciso repetir!

O superficial, o leviano, o frívolo, a conversa de botequim... ora, isso é para encaixar uma ironia, um riso qualquer entre a empáfia da manchete da primeira página e a seriedade da notícia, não subjugá-la! Por que razão, pergunto, o leitor resolveu fazer do superficial, do pueril e sem importância o prato principal de sua refeição?

Lá embaixo, perdida no espaço antes reservado ao folhetim, eis que encontro uma noticiazinha de cara amarrada e apertada ao lado do depoimento de uma médica que largou a medicina tradicional e aderiu à ginecologia natural. Ali, encontro minha resposta sisuda. Trata-se de uma matéria sobre a evasão escolar, e, segundo tal estudo, o país, no ritmo de cágado que caminha, demoraria cerca de 200 anos para incluir os jovens no sistema educacional.

De pronto, o instituto responsável pela avaliação apresenta números, e contra números, sabemos, não há conversa: dados de 2015 (estamos em 2017!) revelam que 22% dos jovens entre 15 e 17 anos estão fora da escola. Também de acordo com os números, temos hoje (2015) cerca de 10,3 milhões de jovens nessa faixa etária. Do total, 1,5 milhão sequer se matricularam em uma escola e outros 1,9 milhão abandonaram a escola antes mesmo de completar o ano e/ou foram reprovados.

O que me consola é que 6,9 milhões frequentaram a escola por um tempo e lá aprenderam a ler algumas garatujas, razão pela qual a maior empresa de notícias do país consegue elencar diariamente as matérias de preferência de seus leitores; o que me assusta é que esses leitores preferem ler e comentar a ‘perereca’ da Luciana Gimenez e a primeira orgia da Cláudia Raia enquanto o país literalmente afunda pelo ralo.

Outro dado curioso que gostaria de comentar com você leitor é o fato de que o tal instituto aponta como a principal causa de evasão escolar o trabalho. O trabalho, sim, o trabalho surge nas entrelinhas como o vilão da história. Para isso, a jornalista exemplifica a matéria com o caso singular do jovem Jonathan, que, aos 18 anos, no segundo ano do ensino médio, descobre que a namorada está grávida e é obrigado a deixar a escola para se tornar chefe de família.

Ora, casos como esse acontece e são frequentes, mas não explicam tamanha evasão e nem se pode creditar ao trabalho a vilania da prosa. Vejam: ao pesquisar, encontrei várias outras matérias (mais atualizadas) sobre o desempregado entre os jovens entre os 14 e 24 anos (lembrem-se que trabalhar aos 14, 15 e 16 é crime perante a lei!) que trazem o índice nada louvável de 28,8%. 

Façamos as contas: 10,3 milhões de jovens x 28,7% significa que temos cerca de 3,0 milhões (2,9664 para ser mais preciso) de jovens desempregados. De modo que, considerados os 3,4 milhões de jovens evadidos das escolas, resta um saldo de 400 mil alunos prejudicados pelo malfadado hábito de trabalhar.

O estudo aponta ainda outros culpados: a infraestrutura, a carência de professores, a qualidade de ensino, o clima escolar. Dei o braço a torcer, afinal, educação só é quesito na pauta de políticos às vésperas de eleição...

Por fim, o estudo também aponta como causa de evasão escolar a baixa resiliência emocional entre os jovens. Flexionei o pescoço, olhei para baixo e entabulei um curto diálogo com meus botões: “O que acham? Lembram-se do maus bocados pelos quais passamos? Levantávamos às 5 da manhã, trabalhávamos o dia todo, estudávamos à noite; os sábados, bem, aos sábados sequer saíamos... tínhamos trabalhos a fazer. Os botões, levados por meus movimentos, desviaram-se à direita, depois à esquerda. Um deles, teso e carrancudo, sussurrou: “Acho que temos uma geração de fracotes.” Reaprumei o pescoço, ergui a cabeça e fingi não ter ouvido aquela outra sinonímia de ‘falta de resiliência’. 

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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Che, um logo pop

Nascido na década de 1950, o conceito de Pop Art representa mais a atitude do artista em relação ao trabalho, que a obra de arte em si. O conceito desafiou a tradição ao afirmar que elementos da cultura popular produzidos em séries seriam equivalentes às Belas Artes, uma vez que o pop remove o material do seu contexto e isola o objeto e/ou combina-o com outros objetos também populares, para a contemplação. Algo como botar a Mona Lisa dançando funk em um morro carioca, arrisco. O ecletismo cultural leva ao delírio os especialistas modernosos e todos replicam o novo à exaustão.
Falo o que falo só para provocar a militância e a combatividade movidas à Che Guevara, aquela estampa que vende bonés, camisetas, bolsas, canecas, chaveiros e, acreditem, acessórios sexuais! Ao comemorar 50 anos da morte de Che, a imprensa decidiu escarafunchar um pouco desse logo que vende de tudo. Anaïs Dubois, do Le Point, aproveitou sua estadia em Buenos Aires e visitou Juan Martins Guevara, irmão do logo.  

Sorridente, ele a recebeu em um pequeno apartamento cujas paredes estão repletas de fotos do guerrilheiro. Entre elas, destaca-se o célebre clique de Alberto Korda, fotógrafo de Fidel Castro, que foi batizado de ‘guerrilheiro heroico’. E é aí que entra a pop art com sua genialidade: Andy Warhol surrupiou o clichê de Korda e foi só um pulinho até que Che estampasse propagandas de vodcas, lavanderias e carros, dando lá sua inestimável ajudazinha à máquina capitalista.
Fizeram dele, Che, um desconhecido? Que nada! Juan Martim, o irmão, é taxativo ao dizer: “Eu acho que é a foto que mais se parece com ele. Quando ele ri, sim, há esse olhar malicioso, é aí que eu reconheço meu irmão Ernesto.” Embora Juan Martim afirme que seu irmão foi de fato um provocador e não um ‘guerrilheiro heroico’, não pude ignorar o tal olhar malicioso, vá lá, isto é o mesmo que ir de Cuba a Nova York, ou vice-versa.
Quando foi clicado, o Che sério da foto, com um olhar negro e profundo, assistia a um tributo às vítimas de sabotagem do La Courbe, navio belga que transportava armas e munições para a ilha, e cujo trágico destino, é claro, foi imputado ao Tio Sam por Fidel Castro.

Korda estava encarregado, assim como vários outros fotógrafos, de cobrir o acontecimento. Sobre a prancha do fotógrafo, vê-se inúmeras outras fotos de Fidel Castro na tribuna, além de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, presentes ao acontecimento, e para os quais a revolução cubana tinha um alto significado.

Esta foto romântica não teve muito sucesso no início; Korda, em uma primeira seleção, separou-a, deixando-a de lado por um tempo até publicá-la, em 1961, no jornal La Revolution, antes que caísse no esquecimento até a morte de Che, em 1967. O editor italiano Giangiacomo Feltrinelli, que detém uma cópia do clichê de Korda, imprime então um milhão de cópias da foto, que vende por cinco dólares. É o nascimento do mito, lucrativo para muitos, menos para Korda, que não leva um centavo pelo clique.

Por outro lado, Korda não tinha lá do que reclamar, afinal, a propriedade intelectual era um conceito burguês que Cuba só abraçaria em 1997, quando aderiu à Convenção de Berna, portanto, nenhum problema em socializar a foto.
No entanto, no final da vida, nos anos 2000, Korda sentiu-se meio incomodado com a campanha da vodka Smirnoff que usava sua foto. “Como defensor dos ideias pelos quais Che morreu, não me oponho à reprodução [da foto] por aqueles que desejam propagar sua memória e a causa da justiça social em todo o mundo, mas sou categoricamente contra a exploração da imagem do Che para a promoção de produtos como o álcool, ou qualquer outro produto que denigra sua imagem”, diz Korda. Respeito o movimento de Korda: afinal, por que criticá-lo por torcer um pouco a corda ao tentar faturar uns míseros 50.000 dólares?
Afora isso, hora ou outra a corda estoura: a filha de Korda que, parece-me, não é o engajamento em pessoa, iniciou uma luta quixotesca contra todos aqueles que usam o clichê de forma abusiva - e abusivo para ela é tudo -, publicidade ou usos comerciais, restaurantes, editores e mesmo partidos políticos. É claro que à época não fazia ideia da extensão dos tentáculos da internet.

Em 2008, uma decisão judicial entre Diaz-Lopez, a filha, e o Front national, partido de extrema-direita francês, que lançou mão da foto, provocou controvérsia entre os profissionais de direitos autorais. Segundo a lei cubana, a fotografia seria domínio público em 1987, mas a justiça francesa, preferiu legislar a partir de uma lei da época em que Cuba era ainda colônia espanhola, afinal, como perder a oportunidade de um pontapé legal em Marine Le Pen?  

A canetada satisfez Diaz-Lopez, mas, se para os franceses a foto só estará em domínio público em 2082, para o resto de todo um mundo mercantil em que o social é ficção de herói, a despeito da legislação, Che é garantia de dividendos e de bons produtos!


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segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Quando os Vautrins adentram a política


Ao longo da semana, em conversa informal com um amigo, discutíamos sobre a tolerância generalizada à corrupção, sobretudo casos em que os envolvidos estão associados a alguma causa social. Teríamos algo como: “rouba, mas faz”, ou ainda, “o fim justifica os meios”. A prosa, é preciso que eu diga, veio à tona em razão do suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis. Rimos – acreditem! – com a generalização do crime; culpa, é claro, de uma carnavalização que só a oralidade permite.

O assunto é espinhoso, por isso, melhor procurar abrigo na ficção, já que a ideia é falar de ladrões. Até mesmo os menos afeitos à leitura sabem que o Romantismo elevou a um outro plano a apologia da subversão, cuja correspondência na literatura francesa do século XVIII, por exemplo, era o desenvolvimento extremado das filosofias libertinas e naturalistas. No XIX, portanto, o malfeitor, o gangster, o bandido, o pirata e outros, tornam-se heróis de uma nova mitologia.

Basta uma olhadela para a memória trazer de arrasto exemplos pródigos: na Alemanha, o Karl Morr, de Schiller; na Inglaterra, o corsário de Byron, o Falkland, de Godwin, o Cleveland, de Walter Scott; nos Estados Unidos, ainda que com certo desvio, os Indígenas de Fenimore Cooper. A lista continua; é só uma questão de exílio numa biblioteca qualquer para você descobrir muitos outros.

Entre essas personagens, algumas obedecem aos seus próprios instintos, a maioria justifica suas atitudes por meio de considerações de ordem metafísica e/ou moral, tais nossos “representantes” na classe política, cujo Papa, a crítica, felizmente não mitifica, mas o chama de “fator”. E, seja qual for o “fator”, na maioria das vezes o que mais importa observar não é o fato de que ele concorre a algo, mas sim o poder que tem para desestabilizar o jogo e mover as cartas em proveito próprio.

Mas voltemos à ficção: os heróis bandidos acima, todos, irmanavam-se no espírito de aventura, ao contrário de nossos “políticos bandidos”, cuja especialidade, parece-me, é nos excluir da aventura, surrupiando-nos o final feliz. No século XIX, sobretudo entre os anos de 1820-1830, disseminou-se na França a voga das histórias de ladrões, cujos episódios, quase sempre ingênuos, caíram na graça de um público popular. Talvez venha daí nosso gosto em amar e idealizar corruptos, reelegendo-os ad infinitum

É sob o signo da literatura popular que Balzac faz sua estreia. Por essa razão, encontramos em suas obras de juventude criminosos fascinantes, ainda que sumariamente desenvolvidos. Estes, mesmo que de longe, já nos anunciam o maior e mais sedutor: Vautrin. Mas não adentremos à análise, falemos antes de um livrinho escrito por Balzac (1826): Code des Gens honnêtes.

Nele, Balzac esboça a fisionomia do mundo dos ladrões, sempre por meio de observações cínicas, herdadas do Século da Razão, e que serão retomadas por Rastignac, célebre personagem arrivista. Com a palavra, Balzac:

“Os ladrões formam uma república, que tem suas leis e costumes; eles não se roubam, religiosamente prestam seus juramentos... Aprendemos assim a admirar esses ‘homens raros’, que são ladrões de grande envergadura, esses psicólogos profundos que sabem mentir com extrema habilidade, prever eventos, julgar o futuro. Esses perfeitos comediantes podem usar qualquer disfarce e interpretar todos os papéis; esses seres inspirados igualam-se ‘aos Homeros, aos Aristóteles, ao autor trágico, ao poeta cômico, graças às virtudes da imaginação, a brilhante, a divina imaginação’.  Acredita-se que, se ele empregasse para o bem o requinte e a perfeição com as quais faz seus cúmplices, o ladrão seria um ser extraordinário”

Voilà, talvez resida aí a razão pela qual grande parte do eleitorado insiste em incensar bandidos, tomando-os por heróis; isto, até que submerjamos todos nas águas profundas da corrupção ou que nos tornemos heróis – ou bandidos! Tudo depende da banda em que você toca!
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P.S.: Qualquer semelhança com seu candidato é mera coincidência.

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